terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Uma cárie no palácio







"Métodos duros de investigação". É mais ou menos disso que Bush chama a tortura dos prisioneiros em Guantánamo. Não o chamarei de boçal, imbecil ou algo parecido. Ele é apenas um...um..."cidadão menos capacitado moralmente". Ou se quiser, um "ser-humano desprovido de qualidades intelectuais positivas".
O eufemismo é a arma típica dos boçais como Bush. Lula chamou a recente crise do gás de "probleminha". Probleminha é dor de dente, unha encravada, frieira no pé, Sérgio Cabral...sim, Sérgio Cabral. Como assim? Explico-me.
Na minha classificação de problemas, uma espécie de "escala Richter" das aporrinhações, Bush é um baita problema, Lula um problema mediano e Sérgio Cabral um probleminha, uma cárie.
Não que uma cárie não incomode, muito pelo contrário. Sergio "Malandro" Cabral incomoda, por exemplo, quando defende a legalização do aborto devido a seu suposto efeito positivo sobre os índices de criminalidade. Para Bush, mais tortura, menos terror. Para Cabral, mais aborto, menos crime .
Que fique claro: sou a favor do aborto. Sérgio Cabral mesmo poderia dar o exemplo abortando sua candidatura à vice-presidência em 2010, antes que se torne uma ameaça, uma séria ameaça aos já não muito animadores índices de moralidade na política.

Dan

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Um vácuo de sensações

A crônica do alto poeta Dan, que segue logo abaixo, reacende um assunto que nos faz refletir sobre a profunda imensidão do dilema da raça humana: "de onde viemos? para onde vamos?". Uma procura que de tão ineficaz, passa a ser vista como ociosa.
É como se não houvesse mais espaço, ou mesmo interesse pela esperança, ou um grande devaneio de beleza na arte, um grito de liberdade na juventude. O que se vê, hoje, em qualquer manifestação cultural ou política - haja vista os filmes brasileiros na Europa, que sempre contêm elementos relacionados a favela e miséria social associada ao tráfico - é uma procura pelo horrendo, uma vontade de entrar em guerra quando, na verdade, a guerra pemanece dentro de nós, parece que a poiesis, a arte pela arte, a busca pelo prazer, passou a ser "alienada" ou descartável. O que absorvemos dos veículos de comunicação, que a priori são fatores determinates para unificação de um povo, é uma representação deprimida do que é o mundo. Há uma preocupação em superexpor a realidade, ao invés de reinventá-la.
Mas o mundo mudou muito, principalmente após o 11 de setembro. O sórdido imperalismo mercantil dos países ricos, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, o beco-sem-saída em que se meteu o neo-liberalismo, a violência urbana. O que nos choca mais: uma instalação com um cadáver em um museu, ou um assassinato em série numa escola?
Não precisamos mais fazer críticas ao capitalismo, ou sobre a questão complexa da democracia brasileira que, por exemplo, mesmo depois de vinte anos de sua restauração ainda apresenta traços podres em sua estrutura. A maior crítica que pode existir ao mundo moderno e ao capitalismo são os homens-bombas, os adolescentes suicidas, os populistas-oportunistas. Esta é a trágica ironia do nosso destino, cada vez mais longe ao passo que abaixamos a cabeça, com medo de sermos taxados de "caretas", vanguardistas, utópicos, e realmente estar a serviço da inteligência na educação de base, uma vez que é restrito o acesso ao livro na escola, aumentando proporcionalmente o número de analfabetos funcionais no país.
O que nos falta é esta sensação anestesiante de ser tocado pela beleza, algo assim como a crônica do Dan, o futebol de antigamente, Vinícius de Moraes, a nossa infância.
Ah a minha infância... Foi rasteira. Passei ela toda com os pés no chão, caçando marinbondo ou fazendo castelo de areia. Era de uma despretensão ímpar aos dias de hoje. Onde se busca, a qualquer preço, um resultado, um objetivo, uma saída.
Pelo visto, não vou conseguir terminar esta crônica hoje. Pois ao terminá-la, estarei de novo desistindo...

Joao Vicente

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Do ócio viemos, ao ócio retornaremos

Passar uma semana sem internet não é sopa. Foi o modem aqui de casa começar a piscar de maneira estranha, e não consegui mais entrar na dita cuja. Engraçada a forma abrupta como isso aconteceu. Sem mais nem menos, perdi quase todo meu contato com o mundo, com as notícias, com a cultura.
Perdi, sobretudo, o passatempo dos passatempos. Nada melhor do que ficar horas como um maníaco em frente ao computador, lendo sobre o expressionismo alemão ou a vida e obra de Sílvio Santos. Durante essa sombria semana de minha vida tive que encontrar um substituto para passar minhas horas de ócio. Não suportei a televisão mais do que três exatos minutos. As palavras cruzadas não duraram nem dois minutos. E o rádio eu não suportei nem pensar em ligar. Aliás, vou me recriminar até o fim dos meus dias por ter tido uma idéia tão abominável.
Foi aí que uma lâmpada apareceu sobre minha cabeça e tive uma idéia digna de gênio: escrever. Escrever à exaustão, como se não houvesse amanhã. Por mais que nada se aproveite, escrever é sempre divertido. Uma palavra engraçada brota aqui, uma outra feiosa pinta ali, e por aí vai, por entre “toleimas” e “peptídeos” você se perde noite adentro. Talvez um dia um poema feito assim, despretensiosamente, conquiste uma garota. Ou um conto bobo vire um clássico do besteirol nacional. Sabe-se lá.
Esta crônica mixuruca, por exemplo, que vai chegando ao fim, para alegria de todos, é fruto dessa sessão de passatempo “escritífero”. E será lida, provavelmente, pelos internautas desocupados que gostam de visitar uns blogs só para passar o tempo, fechando assim o grande ciclo da vagabundagem literária...

-Dan-

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Questões levantadas a partir de uma sigla

Não quero entrar no mérito se a não prorrogação da CPMF foi boa ou não para o país e para os brasileiros. Mas a repercussão da vitória da oposição me fez pensar em determinadas questões sobre democracia, ditadura e imprensa. Esta última louvou os partidos de oposição, dizendo que sua posição era uma vitória da democracia, que correspondia aos ideais liberais do DEM e do PSDB. Primeiro vamos à questão da democracia. É democrático todos os senadores de um partido serem obrigados a votar em certa posição, a título de serem repreendidos pelo partido? Desde quando obrigação e democracia combinam? Quanto ao argumento de que votaram de acordo com suas ideologias, será que a imprensa é inocente ou demagoga? De fato, esses dois partidos se dizem neoliberais, mas eles votaram realmente por causa dos seus ideais? Ou por que qualquer coisa que eles puderem fazer para enfraquecer o Governo, eles farão. Mas o que mais me incomodou nessa história foi a coluna do jornalista Merval Pereira nesta sexta em O Globo. Merval é reconhecidamente uma voz de direita. Até aí, tudo bem. Mas, o que não pode é deixar a sua posição política virar rancor, ódio, como, aliás, acontece, com a maioria dos jornalistas de direita deste país. Aí, qualquer argumento perde a razão.
Na coluna referida acima, em que enaltece o DEM, o PSDB, ele tem a audácia de dizer que caso a prorrogação da CPMF fosse aprovada, daria força ao terceiro mandato e passaríamos de uma hiperpresidência à ditadura. Ditadura assim mesmo, sem aspas. Bem, odeio ser pretensioso, mas do alto dos meus 22 anos, tenho que informar ao senhor Merval o que é ditadura. Eu não, o dicionário:
"O termo ditadura tem o significado de oposição à democracia, onde o modelo democrático-liberal deixa de existir e a legitimidade passa a ser questionada, pois as ditaduras modernas são um movimento totalitário com a supressão dos direitos individuais".
Eu sou totalmente contra o terceiro mandato, e ao que parece, o Lula também. Mas já que a imprensa adora levantar essa bola, não custa lembrar que se ocorresse, seria totalmente dentro do principal direito individual: o voto.
Um último adendo. Na minha opinião, o mais democrático dos partidos na questão da CPMF, e que Merval não ressaltou, foi o PMBD, que apesar de ser da base do Governo, teve diversos senadores que votaram contra a prorrogação.
Democracia é isso. É cada membro do Legislativo votar determinado projeto de acordo com o que julga ser melhor para o país. E não por imposição do partido ou de quem quer que seja.

Júlio

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Noite chuvosa de clássicos da surf music


Collin Hay(na foto acima junto com a equipe que cobriu o show), a voz da banda Men at Work, um dos maiores fenomenos do pop nos anos 80, se apresentou sabado dia 1˚ de dezembro, na praça da Apoteose, depois de quase três anos sem vir ao Brasil quando levou seis mil pessoas ao balneário de Búzios em 2004.
Junto com ele estavam os caras do Spy vs. Spy que mandaram classicos da surf music cultuados até hoje. O que impressionou foi a presença do público no evento, com pouco mais de duas mil pessoas, menos da metade da audiência em Búzios. O festival, que recebe o nome de Rio Australian Fesival, apresentou as bandas e a imprensa ja considerava um dos shows mais esperados do ano, dado o fato de serem bandas internacionais que nunca tinham se apresentado juntos no Rio. No entanto, não foi o que se viu nos backstages e na platéia, já ansiosa com as duas horas de atraso do show. O Atraso era previsto pela organização, haja visto o lugar aberto da Apoteose propício a chuvas, mas foi mal planejado. Mais uma das muitas falhas em produzir um evento que depende de condições climáticas e externas e que por isso deveria ser apoiado pelos orgãos públicos, ou assume-se um festival de proporções grandes com um patrocinador de peso, o que chamaria o grande público(a chamada massa) ao evento.
A verdade é que o marketing ineficaz do Rio Australian Festival ficou no meio termo ao dizer-se um festival de porte quando não havia meios para garantir tal status. Além de um único assessor de imprensa presente. O patrocinador do evento, o restaurante Porcão, teve uma área coberta para convidados com comida e bebida liberada, dj, e o camarim possuía apenas algumas mesas com sucos e frutas. Está na cara que faltou planejamento.
Fora os já "esperados" problemas externos, o show teve algumas falhas na microfonização dos instrumentos durante o início da performance de Collin, mas que foi superada pela banda. "A galera esteve ótima, mas o show foi difícil.", disse o ex-lider após a apresentação que contagiou todos presentes. Os fãs deliraram com hits antigos como "Down Under" e "Overkill", que já fazem parte do set list desde que começou sua turnê solo nos anos 90, e que ainda estão muito bem ensaiados e revigorados. Junto com elas estavam músicas do nono album do cantor, "Are you lookin` at me".
O trio de quarentões-garotões do Spy vs. Spy abriu a noite com respostas também contagiantes do público. O pop rock politizado do grupo rendeu salvas para hits como "Clarity of Mind" e outros clássicos. "Foi incrível a empolgação do pessoal durante o show, fiquei impressionado.", falou o baixista Craig Bloxom ao nosso gravador.
A Austrália agradece o calor do povo carioca.

Joao Vicente

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A saída para o Rio

Ainda estou tentando apreender, mesmo que propositadamente, a realidade que me cerca. Bom, constatamos que é inerente ao morador do Rio esta Heterogeneidade social. Uma sociedade profundamente marcada por toda sorte de diferenças, mas permeada por um fio comum, onde cada qual sabe o seu lugar. E quem não sabe ou leva um tiro ou vai preso. Isto todo mundo sabe. É apenas um retrato da nefasta democracia que nos é imposta.
O Rio é uma cidade aberta, que era capital federal, que era Cidade Maravilhosa. Maravilhosa também porque os criminosos, ou melhor, sejamos cariocas, os contraventores, patrocinavam o carnaval, e continuam patrocinando. Como é que a gente faz nessa cidade em que você chega no carnaval e na primeira página dos jornais aparecem os contraventores, as autoridades e as celebridades, todos juntos, brincando, tomando champanhe?
O que me intriga não é o fato de haver contravenção no Rio, mas como a contravenção faz parte da sociabilidade do cidadão(salve os 10 reais que te livraram daquela multa de ontem). Vai ver não existe cidadania. Ou então, pensa só, a cidadania carioca é muito light. Por exemplo, o cara chega no Rio, toma um banho de mar, pega um sol e já virou carioca. Qualquer cara que chega ao Rio em dois dias vira carioca. Você chega a Belo Horizonte e em três anos ainda não virou mineiro. Qual é a obrigação que você tem com a comunidade numa cidade voltada para o lazer? Absolutamente zero.
Porém, há uma saída. A gente se muda pra Minas e deixa os mineiros tomarem conta daqui.

Joao Vicente

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Legado da Zona Sul

Desde seus primórdios, a zona sul do Rio de Janeiro caracterizou-se pela função residencial e pelo contexto social heterogêneo, pelas pessoas que chegavam atraídas pelos preços razoáveis dos lotes, pela praia e pela beleza paisagística.
Entre as camadas sociais que repartiam a região no início da segunda metade do século, preponderava a classe média, e tocou-lhe implantar, intuitiva e experimentalmente, um código de disciplina à sua conveniência, com normas um tanto ambíguas e eufemísticas para mascarar a supremacia natural decorrente de sua expressiva superioridade numérica, todavia sem as cláusulas peçonhentas e a arbitrariedade do appartheid clássico.
Esta acidez dissonante de cidade grande que chegava pela arrebentação, foi o que esculpiu a sociedade carioca nos dias de hoje. É neste aquário humano que convivem separadamente cada camada social da população brasileira, num microcosmos de absurdos e convivências que nos remete ao verdadeiro sentido da nossa historia.
Com a chegada da corte em 1808, trazendo consigo uma legião de nobres portugueses, muitos moradores foram obrigados a ceder suas casas aos forasteiros. Tais políticas permearam toda a monarquia brasileira que ainda não parecia ter amadurecido mesmo depois da formação de um Estado Nacional. Todos os projetos de interiorização, de formação de um mercado interno, de educação da população, vieram a enriquecer esta desconhecida elite que, destituída de traços brasileiros, julgava o povo como entrave aos seus "ideais".
Todos, sem exceção, foram bem sucedidos, desde a independência até a reformulação democrática de 89. Tudo na base do acordo, do jeitinho, sem rupturas, sem revolução. Ora, meus amigos, o Brasil é um país que deu certo, haja vista o que foi projetado para ele.
Somos nós, moradores da zona sul carioca, herdeiros dessa elite estrangeira e inescrupulosa que fez do Estado brasileiro uma panela de acordatas sem ideais, sem causas, sem futuro. Uma pendenga de disses-me-disses que se encerra em si mesmo.

Joao Vicente

Ética, dúvida, guarda, texto

Vivo uma crise existencial. Calma, o texto a seguir não é um desabafo complexo, nem peço conselhos para resolvê-los. É mais simples do que isso (ainda bem). Eu me considero uma pessoa civilizada. Não ando pelo acostamento, não furo fila, não imprimo folhas com assuntos particulares no meu trabalho. Por outro lado, baixo músicas ilegalmente no computador, não tenho o menor peso na consciência de comprar produtos piratas na Uruguaiana e, confesso, daria dinheiro para um guarda para não ter que pagar multa.
A questão que me atormenta é a seguinte: será que sou uma pessoa politicamente correta; ética? E quem vai definir isso para mim? Eu me considero uma pessoa correta, íntegra. Mas será que a minha avaliação é o que vale? Certamente, uma pessoa que dá dinheiro para o guarda não pode ser considerada ética. A questão é essa: a ética é relativa? Eu acho que sim. Mas admito que esse é um conceito perigoso, já que, por exemplo, o Dirceu pode achar ético comprar o Legislativo por um “bem maior”.
Eu sei que tudo que eu estou falando tem a ver com Lei. Dar dinheiro pro guarda, comprar o Legislativo é contra lei. Isso sabemos. Mas estou falando pelo aspecto ético, que ao contrário da Lei, é subjetivo; abstrato.
Enfim, esse é um texto tão confuso quanto a questão levantada. Espero que tenha ficado claro, pelo menos, a dúvida.

Júlio

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Mistérios do mar oceano

Depois de uma temporada na Alemanha para participar do seminário "Literatura e jornalismo", estou de volta a escrever neste humilde espaço.
Para início de conversa, não tenho nada a escrever sobre o seminário. Porém, voltei com algumas idéias revolucionárias a respeito da procriação das baleias no Mediterrâneo. Contudo, espero que escrever sobre as baleias não me torne um asno. As baleias do Mediterrâneo me ensinaram muito sobre o fazer literário. Escrever não nos acrescenta nada, apenas nos esvazia. É como se cada frase maestral, que por um conjunto de fatores seja considerada Literatura, saísse de mim como o ar sai das baleias.
Não sei se vocês sabem mas as baleias respiram ar e passam a vida inteira dentro do mar. Quase como eu. O que nos difere são as nadadeiras. E o que se vê jorrando pela cabeca delas nao é água, é ar. O ar fica preso dentro delas por muito tempo, quando sofre algumas mudanças e são expulsas daquela forma tipo jato d`água não é? Bom, elas têm uma respiração consciente, diferente de nós, e escolhem quando e porque respirar. De vez em quando até exalam na sua cara de brincadira. Mas quando estão tristes permanecem lá embaixo, no fundo do oceano, por muito tempo. Não dão uma respirada sequer e nem vão a superfície. Elas ficam lá no fundo, concentrando todo aquele ar atemporal para que, enfim, por um lampejo de devaneio, suba arrediamente pelo mar que a rodeia e se liberte, soltando aquela fina gota de oxigênio que se encontra com a luz do céu e nos chega aos olhos.
Enfim, eu não quero fazer Literatura aqui, seria muita pretensão minha. Mas se queres fazer Literatura, faça o seguinte: ao invés de escrever, nade com as baleias.

Joao Vicente

A Vitória do Gaiato

Acabei de assistir na TV a uma matéria sobre o Estatuto da Igualdade Racial. Não estou por dentro do assunto. Não pretendo me inteirar sobre o mesmo. É só mais um aborrecimento, mais uma notícia ruim, mais um motivo para querer embarcar no próximo ônibus espacial para Vênus.
Aí um gaiato gracejaria: - E quem te disse que em Vênus é melhor?
Quem me disse foram as sondas! As sondas, querido gaiato. Todas as sondas que sondaram a Estrela D`alva garantiram: não tem nada, não tem ninguém. É um desertão, um grande Saara redondo. Então, como não ser melhor?
O tal gaiato voltaria à carga: - Vai então, derreter no calor do verão venusiano!
Tudo bem, 700 graus Celsius não é brincadeira. Mas pelo menos o aquecimento global já chegou por lá. Não ficou nesse vai -não vai, nesse esquenta- não esquenta das bandas de cá. Todos os venusianos engajados já se evaporaram, para o bem do planeta.
E lá vem meu interlocutor, mais uma vez, louco pra estragar meu prazer, azedar minha empada, aguar meu scotch: - E se um vendedor ambulante conseguir entrar no ônibus espacial, desculpando-se por incomodar sua viagem e aproveitando para oferecer a pastilha Mentos em promoção?
Tudo bem, gaiato. Você venceu.


-Dan-

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Porteiro-mulher (porteira)?

O povo brasileiro se faz várias perguntas. “Quem matou Odete Hoitman?”; “O que acontecerá com o Jornal Nacional se o Willian Bonner e a Fátima Bernardes se separarem?”; “Quem será o camisa 9 da Seleção na próxima Copa?”, e por aí vai. Mas a questão que mais me intriga é a seguinte: Por quê não existe porteiro mulher? E se existisse, chamaria-se porteira?
Acho que quando eu vir um porteiro-mulher (porteira?), de uniforme e tudo, vai se equiparar à reação de ver um negro presidente dos Estados Unidos. Imagina a situação: “Pode deixar o cd aqui na portaria, com a minha porteira?”. Não saberíamos nem qual alcunha a daríamos.
Um argumento, quando conversei com algumas pessoas sobre essa questão tão importante para a Antropologia, para a Sociologia, e para todos os campos de atuação que pensem a sociedade, foi a de que os porteiros são uma espécie de seguranças também. Mas essa não colou muito. Primeiro, porque existem até mulheres policiais. Segundo, porque, cá entre nós, o porteiro, na melhor das hipóteses, em caso de assalto, vai acionar a polícia, coisa que a mulher também pode fazer perfeitamente.
Eu fiquei pensando, certa vez, se não seria por causa das idiossincrasias femininas, que ocorrem mensalmente e, talvez por este motivo, elas teriam que deixar a portaria de vez em quando. Mas acho que também é balela, já que as mulheres fazem de tudo hoje e os absorventes idem.
Há o argumento de que é um fator cultural. Esse eu concordo. Mas a cultura vai se transformando. Hoje temos casamento entre pessoas do mesmo sexo, mulheres presidentes, mas porteiro-mulher (porteira?), nada. Claro, há o contraponto, as empregadas domésticas são mulheres, mas aí eu acho que a justificativa é mais plausível, afinal, (desculpem-me as feministas) as mulheres, são desde sempre, mais cuidadosas com os afazeres domésticos. Mas, claro, nada é definitivo. Os homens já são, por exemplo, ótimos chefs de cozinha.
Enfim, eu tenho vontade de fazer uma matéria sobre isso, ou quem sabe, um filme, um livro, sei lá. Mas eu ainda tenho de desvendar esse mistério tão importante para...mim.

Júlio

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Procura-se

Hoje, na fila do banco, um senhor de meia-idade, típico fenótipo nordestino, vestido de uniforme de porteiro, comentava com uma senhora que um amigo havia passado por maus bocados na mão do MST, indo em seu fusquinha para o interior da Paraíba. A certa altura, o senhor já dizia que deveria-se "passar fogo naquela raça". Os apologistas do MST vivem brandindo armas contra a grande imprensa por esta supostamente criminalizar a priori os movimentos e cobrir parcialmente os acontecimentos. Não seria o caso também de brandir armas contra o porteiro da fila do banco? Afinal, ele é tão contrário ao movimento quanto a imprensa. Mais: se, afinal, o MST se define como a salvação para os miseráveis do campo e da cidade, por quê o pobre senhor, a exemplo de muitos outros pobres senhores, tanto odeia o movimento?Procura-se uma luta de classes. Eu, com a credibilidade de um já folclórico direitista, tenho uma forte suspeita de seu paradeiro. Ninguém vai levar a sério, já que sou um folclórico direitista, mas não custa arriscar: ela está para nós assim como Deus está para os fiéis que pagam o dízimo à Igreja Universal. Uma das características do subdesenvolvimento é essa: alguém fala em "Deus", "Justiça Social", "Igualdade", "Luta de Classes", e todos aceitam, acatam sem questionar. Estou pensando também em levantar uma bandeira politicamente correta para angariar uns trocados de uns trouxas. Salvação das baleias, dos índios, dos desdentados...qualquer coisa cola no Brasil.

Dan

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sociedade do Medo

É impressionante como nós vivemos na sociedade do medo. Já estamos tão acostumados com ela, que, muitas vezes, no entanto, nem nos damos conta disso. Um exemplo concreto desse sentimento é a “profissão” do flanelinha. Não o uniformizado da CET-Rio, mas os flanelinhas, tipo aqueles da Lapa, que oferecem a vaga, como se fossem deles.
Você não paga o flanelinha porque você acha que realmente o cara vai cuidar do seu carro. Ou seja, você não paga por um serviço prestado por aquela pessoa. Se fosse assim, você pagaria na volta, ao se certificar de que o carro está inteiro. Mas, é claro, que ele não vai estar lá.
Você paga exclusivamente porque, caso se recuse a pagar, há grandes chances de que, quando voltar, seu carro esteja arranhado, com o pneu furado... Resumindo, você “morre” em R$ 5,00 porque você tem medo. É o mesmo sentimento ao dar um dinheiro, um relógio, um cordão, pro cara não te furar com uma faca ou te dar um tiro. O nome disso é assalto.

Júlio

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O infiltrado

Ontem, a revolução russa fez 90 anos. Foi aquele episódio da história que culminou nos expurgos e extermínios de Stálin. A faculdade de Cinema da Uff organizou um evento para celebrar a data, uma "festa de aniversário" para a revolução. Recentemente, o Senado homenageou Che Guevara, a Câmara Municipal do Rio, por meio da vereadora Verônica Costa, a "mãe loura", homeageou meia-dúzia de funkeiros supostamente envolvidos com o tráfico e, agora, a Uff festeja a revolução russa. Proponho que a UFRJ louve, com um banquete ou um coquetel o bandido da luz vermelha e o Escadinha. Mas voltemos à Uff. Coagido pelo irrecusável convite da Bia, minha amiga-poeta, fui parar na tal festa. Do lado de fora, uma roda de alunos ouvia um líder estudantil, sotaque nordestino, barba por fazer, proferir seu discurso inflamado contra a reitoria. Dentro, o "Encouraçado Potemkin" e uma cadeira surpreendentemente confortável me causavam certo torpor. Não deu outra. Adormeci.
Passados 40 minutos, acordei, ao som da "Internacional". Um ripongo estranho dançava uma dança estranha no palco. Alguém falava alguma coisa sobre trabalho. Saí do salão e fui ver a lua, que, linda, refletia na Baía de Guanabara seu brilho de pálida beleza.


Dan

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

GULA

A fome é a única necessidade imutável, freqüente, recorrente. O tesão é passageiro, a alegria também, mas a fome não. Só não digo que é estática porque ela sempre volta, não adianta. Mesmo que você acabe com ela, amanhã estará de volta. Uma necessidade bem democrática por sinal, pobres e ricos partilham da mesma angústia. Você pode perder a visão, o tato, a audição, os braços, a cabeça, o dinheiro, o amor, mas a fome, a fome não. Ela sempre volta, maldita. O intelectual e o mendigo comem com os mesmos dentes. Essa necessidade animal é a que nos torna semelhantes.
Diferentemente dela, a gula é o pecado dos ricos, daqueles que sempre querem mais. O preço pela satisfação plena é caro. A pessoa pode estar empanturrada, mas sempre cabe a sobremesa, o chocolatinho, o pudim. Os restaurantes e gourmets agradecem aos céus pela invenção da gula. Se comêssemos apenas o necessário para nossa nutrição, o arroz, feijão e a carne seriam suficientes. Mas não. O ser humano sempre quer algo a mais, uma comida sofisticada, um cardápio elaborado. Mais um prato, por favor, mais um refrigerante, mais sal, mais açúcar, mais uma trepadinha,sempre mais, sempre.
A fome sempre volta, a gula é constante. A gula está em tudo. A ambição é a gula por um passo adiante, uma evolução rápida. Eu, como um glutão assumido sempre tenho vontade de experimentar o novo. Foi experimentando o novo que li o livro Clube dos Anjos, do Veríssimo. De uma sentada só, acreditem, engoli-o rapidamente. Coincidência ou não o livro é daquela coleção lançada há algum tempo sobre os sete pecados capitais, e adivinhem só, é sobre a gula. Sobre dez rapazes que perdem suas vidas, mas não perdem o prazer de comer seus pratos favoritos. Ele é um máximo, 130 páginas somente (por isso que consegui lê-lo de uma sentada só) e a linguagem é ótima e simples. As histórias se amarram e o final é bem legal. Bom, vou nessa porque já estou com fome, ou será gula, acabei de almoçar.

O glutão do Lucas

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Senhor Mercado

Outro dia comentei com meu professor que iria fazer um intercâmbio, ao que ele respondeu: “Muito bom! O mercado adora intercâmbio”. Achei engraçado. Não com o conteúdo da reposta em si, porque todos sabemos que experiência internacional é importante. O que mais me intrigou foi a forma: “O mercado adora intercâmbio”. Falou do mercado como uma pessoa; um chefe. Poderia ser substituído por “O Paulo adora intercâmbio”; “A Marcela adora intercâmbio”. O Mercado (com maiúscula mesmo) parece um senhor. Você tem de todas as formas agradá-lo.
O Mercado gosta de pró-atividade, curte várias línguas, é chegado numa experiência profissional anterior, admira pessoas multimídias... Os jornais hoje em dia dedicam, inclusive, cadernos exclusivos para ensinar como afagar o Senhor Mercado, que tem até idade: 214 anos, quando da instituição do mercantilismo.
O Mercado parece um tio distante que você vai conhecendo à medida do tempo. Mais precisamente aos 20 e poucos anos. É um tio um tanto quanto exigente e com certos requintes de crueldade. Mas é bom também você não atender a todos os seus caprichos, senão você corre o risco de virar um mero produto dele.
O Mercado parece uma coisa meio abstrata, mas não é. O Mercado vai determinar, entre outras coisas, o que você vai poder comprar no mercado.

Júlio

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O Quércia vem aí!

Há uma frase, uma sentença, que não me sai da cabeça há dias: "Quércia vem aí". A profecia está cravada em um muro no Estácio, por onde passo todo dia, indo pra faculdade. E todo dia me pego contemplando a tal frase, como se fosse o enigma da esfinge ou um segredo de Fátima. Já me acostumei com tiroteios, assaltos, famílias desabrigadas, tudo...só uma coisa me chama a atenção, resplandece em meio a todas as desgraças e superficialidades urbanas, tal e qual cristal entre pedras sem valor: "Quércia vem aí", a grande metáfora da esperança louca num futuro que já passou. Tudo indica que a inscrição data de 1994, quando Quércia concorreu à presidência da República. Após treze anos, a frase permanece lá, impávida, intacta, soberana, mesmo exposta a sol, chuva, frio, calor, arrastões e vendavais, como uma tatuagem gravada para sempre na alma do país. "Quércia vem aí" é o registro de um tempo que nos relembra nosso atavismo, nossa fé cega e irracional, quase mística, mas é também uma ameaça, real e constante, eterna e imutável. Sempre que um político disser, na TV, que "estamos trabalhando para atender às demandas urgentes do povo brasileiro", lembre-se: "O Quércia vem aí!"


Dan

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Não Veja

Cara, cada vez a Veja me surpreende mais. Negativamente, claro. Outro dia, esperando para ser atendido no dentista, resolvi ler a última edição. A matéria principal é "Realidade, só a realidade" sobre... o Tropa de Elite. Era de se esperar que a Veja gostasse do filme, como boa fascista que é. Agora, o enfoque dado à mesma é assustador. Ela quase incentiva a tortura. Diz que dá um "tapa na cara da sociedade, porque mostra os verdadeiros culpados pelo tráfico". Pelo amor de Deus!! Eu nem quero mais entrar no mérito dessa discussão...
O que mais me incomoda na Veja é que ela aborada todos os temas relevantes na sociedade sempre pelo viés da direita: aborto, legalização, armas, política. Não tem problema ser uma revista de direita, mas porra, você não pode pensar em determinado assunto SEMPRE com esse pré-conceito.
Acho que no processo seletivo eles devem perguntar aos pretendentes: "Você já votou no Lula?"; "Você já usou algum tipo de droga?"; "Quem foi Costa e Silva, 02?"
A edição anterior era para desmistificar Che. Honestamente, nem conheço a fundo a biografia do mesmo. Mas usar argumentos como o de que ele não tomava banho e fedia chega a ser engraçado, para não dizer ridículo. Além do que, a matéria só ouve personagens que eram contra Che. Quem conhece um pouco de jornalismo, vê que aquilo é nojento. É o mesmo que você fazer uma matéria sobre o Lula e só ouvir o Mainardi e o Reinaldo Azevedo.
Os dois, por sinal, além de arrogantes e prepotentes, são o cúmulo do conservadorismo na imprensa brasileira. O babaca do Mainardi é polêmico para ser polêmico. Diz que o Acre não deveria existir, que a única solução para a América Latina é sair dela. Na mesma edição do Tropa de Elite, o artigo dele termina com a seguinte frase: "Mostra realmente o que é o Brasil: luta de bandido contra bandido". Não sei se ele é bandido. Mas eu não sou. Portanto,"Ei, Mainardi, vai tomar no cú!". O problema não é ele escrever isso, o problema é ele ter um espaço para escrever isso. O tal do Azevedo disse que o Alberto Dines tinha que tomar remédio para a velhice e que ele tinha contribuído para o Golpe de 64. Reinaldo quem?
Tanto a revista quanto os colunistas usam expressões como "a esquerda imbecil"; "a esquerda não sei o que". Por que você não pode explicitar seu ponto de vista sem agredir o outro?
Enfim, a Veja representa o que há de pior na sociedade brasileira: o conservadorismo, a arrogância e o preconceito. Por isso que vende tanto.

Júlio

Terra desaba, máscara idem

O caos que se instalou na cidade devido à chuva forte e o desabamento de terra sobre o Túnel Rebouças refletiu o despreparo do governo para contornar situações extremas. Mais uma vez a população pagou pela omissão do poder público (se não me engano isso aconteceu há pouco tempo com aviões). Ficou claro que a Prefeitura não tem plano emergencial para o trânsito na cidade, nem para nada. Além disso, o que ocorreu ontem mostrou que não há solução, que não orar para São Pedro, para o problema das enchentes, que castiga os moradores desde que o samba é samba. Eu comemoro e lamento que esse caos não tenha acontecido na época do Pan. Porque, só assim a máscara de bom administrador do César Maia cairia na hora oportuna. O que me incomoda é que ao invés de aceitar a falha, o calvo de jaqueta fica minimizando o problema e jogando a culpa na Cedae, que é estadual. Ele foge da raia e ainda subestima a inteligência do povo (essa frase serve tanto para esfera municipal quanto para federal).
Pelo menos, o episódio de ontem serviu para uma coisa: mostrar aos eleitores que é preciso avaliar bem a proposta de governo de cada candidato. Não basta abalizar a proposta em um só aspecto. Não basta dizer que lutará contra a violência, que melhorará os hospitais e tudo mais. O Rio precisa de um guerreiro que não se omitirá na batalha contra os problemas históricos de infra-estrutura da cidade como enchentes, crescimento desordenado de favelas, saneamento, trânsito, poluição… Certamente não há político com esse perfil no Brasil, nem na esquerda nem na direita. A solução esta além da disputa entre as duas ideologias. Enquanto o bom samaritano não aparece, continuaremos andando com sacos plásticos nos pés, colete à prova de balas no peito e cinismo nos olhos fingindo não enxergar a degradação do Rio e do Brasil.

Lucas

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Os laranjas

Guilherme Zarvos no livro "Zombar", zomba, achincalha, puxa a orelha de Arnaldo Jabor e Elio Gaspari. Resolvi seguir os passos Zarvianos e fazer o mesmo.
Outro dia me aparece o Jabor, enjoado, egocêntrico como de costume, no Jornal da Globo, criticando o DEM por fazer oposição fechada contra a CPMF. A tucanice de Jabor é constrangedora, mas uma coisa não se pode negar: sua fidelidade. Até agora, quando o PSDB vai fazer mais um de seus papelões históricos, aprovando sem ressalvas a prorrogação da CPMF, Jabor não os abandona. Vai afundar junto.
Já Elio Gaspari é um caso perdido. Para ele, o que importa não é estar certo ou errado, é "parecer isento". Ao bater, um dia no PT, outro dia no PSDB ou DEM, ele cria em torno de si uma aura de "imparcial", "descomprometido" que pode impressionar os impressionáveis. Não caio nessa. Gaspari é tucano enrustido, mas quer dar uma de santa do jornalismo. É uma pena. Escreve bem pra burro, mas de burro não tem nada.


Dan

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Tiro ou Livro ?

Na semana passada a imagem de policias num helicóptero matando dois traficantes desarmados da favela da Coréia esquentou o debate sobre segurança pública no Rio de Janeiro. É claro que eu como cidadão, cansado da violência que desvaloriza a cidade, senti-me vingado pelos policiais. A maioria da sociedade comemorou ao assistir aqueles bandidos, fugindo como lebres assustadas, serem abatidos diante das câmeras. Só que comemorar esse tipo de atitude do Estado é uma sandice. O que ocorreu foi uma execução sumária de dois supostos bandidos. Matar uma pessoa desarmada é contra a lei e também é proibido em tratados de guerras internacionais. Embora eu ache que bandido tem que morrer mesmo, é de se esperar que o Estado cumpra a lei. Se o Estado não dá o exemplo, quem irá dar?
Há quem discorde dessa política de enfrentamento ao tráfico. Muitos dizem que a solução para a violência é a educação, eu concordo. Só que para desorganizar o crime organizado é preciso trabalhar em várias frentes. Uma delas inclui essas operações sanguinárias da polícia – que servem para minar o poder de fogo dos bandidos. Com educação conseguiremos (espero) acabar com a violência. Mas devemos lembrar que em outros governos (lê-se Brizola em diante), quando a educação era prioridade, os bandidos tiveram sossego suficiente para organizar essa rede complexa de comércio de drogas e reunir arsenal iraquiano de armas. Então concluo que só educação não basta. Pra não dizer que não falei de flores, nem de Tropa de Elite, acredito que o filme, mesmo com seu discurso simplista (e não idiota), mostrou que o poderio de fogo do tráfico é grande e que se ele não for combatido agora o que será do Rio em dez anos?

Lucas

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Sempre sobra pro xerife

No último texto, o camarada Júlio fez um gracejo com a simpática figura do xerife. Nos filmes de bang-bang, nas históras do Zorro e do Tex e em toda a mitologia do velho oeste, o xerife sempre foi ridicularizado, representado como um senhor barrigudo, de bigodes fartos e um tanto idiota, que corria atrás dos heróicos bandidos com sua estrela no peito e uma pistola enferrujada. No final, sempre sobrava pro xerife. Era uma forma sutil e até inteligente de depreciar a lei, o estado, e exaltar a rebeldia romântica. Mas depois que o discurso carola da esquerda chique tomou conta do debate, com sua falta de humor e inspiração, o outrora atrapalhado xerife tornou-se o monstro, o carrasco, a máquina de punir que “não pensa no social” e só quer “prender, matar e destruir”. O que era uma crítica mordaz e descomprometida ao status quo, tornou-se “científico”, com o surgimento de inúmeras teorias que colocavam o xerife e a polícia, como meros serviçais do estado burguês. O xerife passou a ser o símbolo da “dominação burguesa”. Sua história se confunde com a história do pensamento socialista- da utopia para a “ciência”. Pois muito bem. Não tenho muito apreço pelos “xerifões” de que Júlio falou:. Wagner Montes, Denise Frossard, Àlvaro Lins, Jair Bolsonaro( não foi citado, mas é uma batata quente que sempre cai no colo da direita decente).....todos me parecem muito toscos, despreparados, corruptos, demagogos...mas a triste constatação é que não é por isso que a esquerda festiva abomina estes senhores e senhoras. Corrupto por corrupto, demagogo por demagogo, tosco por tosco, despreparado por despreparado, o Lula também é. O Mercadante também é. O Chávez também é. A diferença é que estes não curtem muito a lei, a democracia, enquanto os xerifes acima citados cometem o crime gravíssimo de....defenderem a lei e o estado democrático de direito. Ao que me parece, a esquerda odeia o Wagner Montes pelo motivo errado. Ela o odeia por aquela que seja, talvez, sua única virtude: fazer, publicamente, diariamente, a defesa da polícia, das leis e das instituições democráticas.


Dan

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O Rio precisa de um xerife

O título acima é o slogan do provável futuro prefeito do Rio de Janeiro, Wagner Montes. Ele mesmo. Aquele que apresenta um programa na Record e usa bordões como “Minha poliçada”; “Escrachaaaa”. Segundo pesquisa recente, ele aparece em primeiro com 20% das intenções de voto para a Prefeitura do Rio.
Esse predileção, a meu ver, é efeito direto, entre outras coisas, do Tropa de Elite. Pode não ser ter sido a intenção do diretor, como de fato não foi, mas que aflorou o sentimento na sociedade de que o Bope, o “caveirão” e o velho discurso do “bandido bom é bandido morto” são a solução para a violência da cidade, é inegável. Exemplo disso é a grande venda de capas para celular no Centro da Cidade e a exaltação, até em tom de brincadeira, mas que acaba ficando no imaginário popular, ao Capitão Nascimento e às musiquinhas do Bope, tipo “corta e faqueia 02”; “botamos corpo no chão(...)”, e mais tantas outras que são ouvidas em qualquer canto da cidade. Até por isso não consigo engolir essa tese de que o filme é ficção.
Esse discurso burro e simplista de que a violência só pode ser coibida com mais violência vem levando diversos policiais a cargos políticos nos últimos anos no Estado do Rio. Isso é sintomático e mostra como a população acha que vai resolver o problema que a aflige. Vide Álvaro Lins, Marina Maggessi e Marcelo Itagiba. Não por acaso, TODOS esses foram envolvidos em escândalos de corrupção, posteriormente. Esse mesmo discurso da tão falada “Segurança Pública” levou Denise Frossard para o segundo turno. Ela, por sinal, é o exemplo mais evidente da limitação dessas “autoridades policiais” . Nos debates da última eleição, ela demonstrou não saber nada de Economia, Saúde, Educação e outros serviços fundamentais, que as pessoas não enxergam, mas que estão diretamente ligados à questão da violência. Mas quando o assunto é invadir o morro e matar o quanto for necessário, no entanto, ela não pestanejava.
É óbvio que a questão da Segurança Pública tem de ser prioridade no Estado do Rio. A polícia tem de ser eficiente, ganhar melhor, invadir morro mesmo e até matar quando for preciso. Mas ela é tão importante quanto a Educação, por exemplo. Até porque, só através dela, poderemos discutir racionalmente temas relevantes e intrínsecos à violência como legalização das drogas. Por isso não podemos eleger pessoas com essa limitação.
Argumentos como o do Daniel, de que a culpa não é do filme, mas sim da sociedade que é ignorante (infelizmente), são plausíveis. Mas, acho que quem faz Comunicação, ainda mais para a massa, como é o caso do filme, tem de saber a realidade em que está inserida e o impacto que vai causar tal mensagem.
Como dito acima, não tenho a menor dúvida de que o efeito “Tropa de Elite” fará com que mais candidatos com essa bandeira sejam eleitos vereadores no ano que vem, e Wagner Montes, sem dúvida, será um nome fortíssimo à Prefeitura. Já o seria sem o filme, mas com ele, vai ser mais ainda. Se mudar o slogan para “O Rio precisa de um Capitão Nascimento”, então, é eleito no primeiro turno.

Júlio

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

As rosas não falam

“Subo nesse palco
Minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê
De bebê”



“Se ela dança eu danço
Se ela dança eu danço
Se ela dança eu danço”



“Você foi mó rata comigo”

Por essas e outras, me inclino cada vez mais para a música instrumental. Nossos artistas não têm muito a dizer. Acaba de morrer Paulo Autran. A porção de artistas com algo a dizer fica ainda mais reduzida. Seria ótimo se quando algum artista abrisse a boca, ouvíssemos, em vez das bobagens de sempre, uma sonata, um solo de piano ou quem sabe a nona sinfonia de Beethoven . Seríamos melhores se emitíssemos só sons, músicas e não palavras.
Para quem anda pensando assim,como eu, vale a pena conferir o trabalho de Carlos Malta, mestre do sopro e da performance. Seu show é um show, uma experiência sensorial sem igual. Mas palavras são só palavras, nem chegam perto de descrever o que acontece neste espetáculo do qual elas, as palavras, não fazem parte. O máximo que posso dizer é: vai lá, ver de perto o que esse cara faz.

Dan

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Ascensorista

Arrisquei-me a escrever um conto. Ei-lo:

Ela é ascensorista do prédio em que ele trabalha. Ele chega sempre às 8h57m para esperar o elevador, que o leva até o 22º andar. Às 18h ele sai. Ela admira sua pontualidade, que começa o serviço às 9h. Por sinal, ela admira tudo nele. Ele, porém, não sabe, porque ela é tímida, muito tímida. Tudo o que ela gostaria era chegar para ele e dizer da sua admiração, ou melhor, atração (desejo). O elevador nunca está vazio, é a “hora do rush” no edifício comercial. Há sempre, no mínimo, umas oito pessoas. No máximo, 14. Dentre essas, uma pensa numa outra que está naquele mesmo espaço. Enquanto as outras pessoas pensam, possivelmente, no trabalho que está prestes a se iniciar, na conta que tem que pagar no banco ou o que vai comer no almoço, ela pensa nele. Só nele. Naquele dia, porém, ia ser diferente. Ela revelaria tudo. Da sua admiração, desejo, paixão.
Deu certo. Ele topa. Eles começam a sair. Direto.
Quarta-feira, mais um dia de trabalho, ele sai às 18h. No dia seguinte, 8h57m, ele não chegou ainda. Estranho. 9h, 9h10m, nada. “Não deve vir mais hoje, está doente”. Não vai, bem como no dia seguinte. E na semana seguinte...
Moral da história: O elevador não transporta só de um andar para o outro. Ainda mais para uma ascensorista.

Júlio

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Mpb de hoje ou de ontem ?

Gosto musical não se discute, cada um tem o seu. Mas uma coisa é certa: ninguém escuta as mesmas músicas a vida toda. É questão de fase. Às vezes você quer ouvir coisas mais antigas, ou mais tristes, ou até música sem voz, só instrumento. Vamos direto ao ponto. Cansado das que vinha escutando, decidi baixar coisas novas. Digo novas no sentido de inéditas para mim, não coisas modernas. Enfiei-me no mundo virtual à procura de novos sons. Nada de letras complexas e inteligentes.
Queria algo que não me remetesse à reflexão alguma, porém, que me fizesse bater o pé e tamborilar os dedos. Tanto procurei que achei. Novos Baianos. Fiz o download do cd “Acabou Chorare” no meu capenga e guerreiro micro. Ele tem mais música do que qualquer outra coisa. Aguardei o download com paciência de quem espera um prato de comida.
Pronto, baixou. Nossa, que som. Que estilo. Uma batucada frenética. Dá pra perceber a quantidade de instrumentos usados. Em suma, sensacional. Formado por Baby Consuelo, Moraes Moreira e sua trupe, os Novos Baianos mesclavam vários estilos num só e com uma propriedade que me agradou ainda mais. O sotaque. Muito bom.
Quem lê esse texto deve questionar sua finalidade dele. Eu me adianto respondendo que o objetivo é justamente esse, indicar um cd. Eu costumo ouvir coisas mais antigas já que a música popular brasileira atual está capengando. Antigamente existiam grupos de vários artistas – o que valorizava o som.
Pego meus lps e vejo que em uma porção de discos havia faixas com participações especiais. Por exemplo, num disco do Gil tem faixa com a participação do Caetano. O barato é que do lado da faixa vem escrito “artista gentilmente cedido por tal gravadora”. Participar de discos dos outros era bastante comum naquele tempo.
Hoje, há uma procura maior pela carreira solo. A lei do cão prevalece. Não ajudo ninguém porque ninguém me ajuda, é o que dizem. Em minha opinião isso é culpa do mercado que vende um nome, uma marca, ao invés de uma banda ou conjunto. Não que no passado não ocorresse abandono de banda. Mas eu acho que antes havia uma troca maior entre os artistas. Freqüentavam os mesmo lugares. Pensavam parecido. Eram ativos politicamente. Era possível dizer que existia uma massa artística, homogênea em suas idéias.
Um exemplo mais que ilustrativo dessa lei do cão é o do Seu Jorge e do Farofa Carioca. O Farofa era uma “big band”, dezenas de artistas e instrumentistas, cada um fazendo o seu, no final o som ficava magnífico. Foi o Seu Jorge sair que ela acabou no ostracismo. Então, alguém diz: “Ele era o líder, sem ele a banda não seria nada”. Concordo e discordo. Se não fosse a qualidade musical do Farofa, hoje em dia não saberíamos a diferença entre Seu Jorge e Seu Zé. Com o Planet Hemp aconteceu a mesma coisa. A banda alternativa deu lugar a uma carreira solo de popstar. É triste.
Escrevendo esse texto me dei conta de que nenhuma banda ou artista que faça música de verdade, de qualidade, foi lançado no século XXI. Planet, Farofa, O Rappa, Los Hermanos, Natiruts, Raiumundos, Lenine, Pedro Luiz e a Parede, Paulinho Moska, Nação Zumbi, Marisa Monte, entre outros, já existiam no final da década de 90. Pensando aqui, não consigo me lembrar de alguém que ingressou na carreira musical depois do ano 2001. A tão reconhecida Mpb está definhando. Espero ansiosamente que ela se reerga.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Sobre um time de futebol

Quatro letras, um destino: SINA. Eu não sou supersticioso. Não sei se é bem superstição a palavra, acho que é mais sina mesmo. Não é o goleiro, não é o juiz, não é o meia-armador, não é o doping, não são os 44m do segundo tempo. Acho que é sina mesmo. Contra o destino, dá para tentar mudar. Contra a sina não. A sina gruda, a sina adentra, a sina impregna. Não tem explicação. Para tudo na vida, no mundo há explicação, para a sina não há. É um fenômeno, não sei se posso chamá-la assim, pois não tem sinônimo, não tem definição, não tem nada. São quatro letras. Quem será que inventou essa palavra. Não olho a definição no dicionário porque assim ela é ainda mais auto-explicativa. Mais interpretativa. E também, confesso, tenho um pouco de medo. Não sei se existe em outras línguas. Não precisa. Só que no Brasil, ela precisa existir. Mais precisamente no Rio. Porque só ela pode explicar. Não é o goleiro, não é o destino. Não é o juiz, não é azar. Não é nada. Ou melhor, é sim. É tudo. Poderia ser o feminino de sino, mas era muito pouco para ela. Sino significa o mesmo para mim, para você, para o Tom Cruise, para o Papa. Mas ela é muito mais do que uma fêmea de um troço que faz barulho e fica em igrejas. Portanto, possivelmente você não entende bem o que eu quero dizer. Essa declaração não é de um torcedor de futebol revoltado, é um simples desabafo de quem acha que essa palavra é pouco explorada. Mas eu sei bem o que ela significa. Eu acredito nela. Mas ela é ruim. Muito ruim. Mas um dia eu pego ela. Nem que eu tenha que fazer da parte da próxima comissão do Aurélio.

Júlio

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Shhh.....

Não foi Renan Calheiros o maior vencedor de todo este processo que se arrastou no Senado. Foi Marilena Chauí, filósofa da USP.
Na época do mensalão, Marilena, do alto de sua vigarice intelectual, decretou: "o mensalão é uma criação fantasmagórica da mídia". Muito coerente com a tese que defende no livro "Simulacro e poder- Uma análise da mídia", a de que a grande imprensa é anti-democrática, pois está a serviço dos interesses do capital.
É a tese de dona Marilena que serve de álibi para os maiores escândalos- como este último. Ouve-se nas palavras de Renan o eco das teorias da filósofa: "Isto não passa de intriga da mídia", ou " A elite quer me derrubar". A mesma conversa mole de sempre.
Lembro que Marilena só deu aquela declaração infeliz sobre o mensalão porque acusava-se, então, à época, os intelectuais de passividade e omissão frente à crise. Mas tudo que eu tenho a dizer para eles agora, quase todos é: silêncio, intelectuais, silêncio...

Dan

VERGONHA

Porra, eu sou um palhaço em acreditar que o PT olha pelo Brasil e que os outros partidos só querem chupar o sangue da nação. Com a absolvição do Renan Calheiros (PMDB-AL) ficou evidente que o PT, agora no poder, tem medo de bater de frente com outros partidos. O partido estava com a faca e o queijo na mão para cassar Calheiros, mas encolheu-se, acovardou-se diante de um PMDB que ocupa muitos cargos do governo e é maioria no Senado federal. São 19 senadores do PMDB contra 12 do PT. Em minha visão, o Partido dos Trabalhadores preferiu fugir da raia - com medo de ser boicotado em projetos futuros, que travar batalha política contra o PMDB.
O partido colocou interesses políticos na frente dos interesses da sociedade. Ele colocou o Brasil em segundo plano. Isso é inadmissível. Um exemplo mais do que claro dessa sacanagem e desse descaso conosco foi o do senador Aloísio Mercadante que preferiu abster-se do que votar a favor da cassação. O senador foi eleito com 10 milhões de votos e era imprescindível tomar uma posição e não ficar em cima do muro como fez. Com essa atitude ele cuspiu na cara de 10 milhões de brasileiros. Logo o PT, que levanta a bandeira do social, pisou em cima de nós. Que levanta a bandeira da luta política, fugiu como um carneirinho assustado.
E o presidente Lula? Em suas viagens ao exterior dizia: “O que for decido do senado terá de ser acatado pela sociedade”. Acatar essa decisão é o cacete. Eu não concordo com a absolvição. Acho que o Lula mostra-se um perfeito omisso nesse tipo de questão. A decepção é um sentimento que acredito compartilhar com a maioria dos eleitores do PT. Eu sou um palhaço, eu votei no PT.

Lucas

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Tropa, depois de visto

Finalmente assisti a Tropa de Elite. E, ao contrário do que previ no último texto, não achei o filme maneiro. Muito pelo contrário. Achei o filme uma merda. Vou tentar basear da forma mais clara meus argumentos. Para começar, a cena que achei mais idiota e mais me irritou. A discussão na sala de aula, passada na PUC, não poderia ser mais imbecil e caricata. “Uma vez fui muito mal tratada numa blitz indo para Búzios”, ao que os outros colegas de classe confirmam e também falam das agressões que já sofreram pela polícia. E o professor olha aquilo tudo como se tivesse estarrecido com tais informações. O jovem policial negro discorda, usando os argumentos totalmente estapafúrdios. Que cena idiota (desculpe se já usei idiota anteriormente, mas também já usei estúpido, imbecil...não lembro de um adjetivo diferente agora.) A cena em que a menina da ONG, amiga da menina que o policial negro “dá uns pegas” no final, morrendo com um tiro na cabeça é horrível, bem como a do “playboy” queimado nos pneus. Horrível e desnecessária. Enfim, não dá para descrever todas as cenas que achei horríveis, imbecis, idiotas... O filme, como um todo, é uma seqüência de estereótipos. O policial negro, que sofre preconceito. Os playboys maconheiros idiotas, que são os culpados pela violência da cidade. Além do que, o filme coloca os que participam de ONGs como “mauricinhos e patricinhas que querem fazer algum bem aos pobres”, e recomenda que não façam isso. Tudo bem, eu sei que documentário é uma visão parcial, é a opinião de uma pessoa, tudo bem... Mas também posso dar minha opinião sobre a opinião de uma pessoa: idiota, superficial, caricata, estereotipada. Ah, o filme não tem nada legal? Tem. A história da BOPE e suas atribuições por si só já são muito interessantes e intrigantes. Foi uma sacada muito legal fazer um filme sobre isso. Além da atuação soberba de Wagner Moura, as cenas de ação e tiros na favela são muito bem feitas e produzidas. Mas isso era o mínimo para um filme que custou mais de 10 milhões de reais. Honestamente, prefiro os poucos recursos, mas a visão muito mais equilibrada e lúcida de “Notícias de uma guerra particular”. Temas tão delicados cabem muito mais no formato de documentário do que numa ficção a la Tarantino.

Júlio

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Tropa

Ainda não vi Tropa de Elite. Não que eu seja contra a pirataria. Simplesmente não vi porque não consigo baixar vídeos no meu pc e também não tenho essa ânsia de ter que ver o filme logo. Mas acho que deve ser muito maneiro. Aí que está o problema e o ponto central do texto que se segue. Filmes sobre a situação do tráfico no Rio de Janeiro não são mais reveladores ou denunciadores. São maneiros. Outro que está por estrear ou já estreou, sei lá, é “Cidade dos Homens”, o filme. Depois do seriado na Globo, com grande audiência, viu-se que poderia se tornar um produto cinematográfico. Como tudo, a violência, em especial o tráfico do Rio, também é um produto. E só o é porque tem público, tem audiência, e por que não, admiradores. Eu acho que a gente (eu me incluo) acaba gostando de ver filmes sobre esse assunto, tem uma certa fascinação. Não sei exatamente o porquê. Têm ação, têm gírias (as que a gente fala), além do que, inegavelmente, é uma realidade muito próxima da nossa. Ou, melhor, é a nossa realidade. Mas o caráter revelador, denunciador, já passou. O pioneiro “Notícias de uma guerra particular”, por exemplo, já abordou a corrupção na polícia, o “arrego”, as crianças de 12 anos que pegam em fuzis e tudo mais. Isso para quem não sabia. Mas agora que a gente já sabe de tudo isso, esses filmes são meros produtos de entretenimento. Posso estar enganado. Tomara que sim. Pode ser que o tempo mostre que eu estou equivocado e esses filmes ajudem a acabar com o tráfico no Rio. Mas enquanto isso não acontece, vou comprar uma pipoca e ver Tropa de Elite, que deve ser muito maneiro.

Júlio

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Vergonha

Desculpem o texto seguido, mas é importante. Hoje, senti uma tristeza que há muito tempo não sentia, quando entrei no banheiro do nono andar da UERJ. Ele estava alagado, completamente alagado. E duas das três pias estavam destruídas. É normal ficar triste quando se vê uma criança no sinal ou uma velhinha pedindo esmola na rua, mas, hoje, com o banheiro alagado, foi diferente. Foi também revolta, indignação, alguma coisa que não tem nome.
É impressionante o descaso, o desrespeito da administração pública pelo ser humano. A manutenção de um banheiro não depende de verba. Depende de vergonha na cara.
Diante desse quadro dantesco da gestão pública, é risível que se faça um plebiscito em favor da reestatização da Vale do Rio Doce. É um tapa na cara de quem conhece a realidade do poder público. É entregar o ouro ao bandido.
Sou contra as privatizações. É uma perda de tempo. Deviam dar tudo. Dar a Petrobrás. Dar a Caixa Econômica, o Banco do Brasil, tudo. Podia ser, quem sabe, o prêmio da mega-sena, sei lá. Mas do jeito que está não pode ficar.
Luta de classes no Brasil, só entre estado e sociedade. O resto é ficção, é delinqüência intelectual.

-Dan-

sábado, 1 de setembro de 2007

Ah os meus botões...

Tenho um Ipod dentro de mim. Enquanto muitos recorrem ao aparelhinho para amenizar a chatice de longas viagens de ônibus ou eternas esperas nas salas de espera, eu recorro aos meus botões, meus doentios botões para me distrair.
Me divirto mesmo, chega a ser uma das horas mais agradáveis do dia a ida à faculdade. No caminho, que para muitos é insuportável sem um Ipod, eu percorro caminhos inusitados, componho, cantarolo, construo fabulosas teorias sobre a natureza humana, enfim, é como se houvesse um parque de diversões ou um vídeo-game dentro da minha cabeça.
Outro dia, relendo uns pedaços de Quincas Borba, me deparei com o capítulo CLXII, em que o velho Machadão explica de maneira genial isto que aos trancos e barrancos eu tentei explicar nos primeiros parágrafos deste texto. Lá vai:

” A expressão: “Conversar com os seus botões”, parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre as nossas moções.”

Ipod, vídeo-game, senado...temos tudo isso e muito mais na cachola, de graça, então, por quê não usar?


-Dan-

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Intranet

Troço estranho essa Internet. Por sermos da geração que cresceu com esse advento da Modernidade não damos tanta atenção a ela. Quer dizer, atenção damos, segundo pesquisas, nós, jovens, ficamos até cinco horas por dia nela. Mas o que eu quero dizer é atenção no sentido de reflexão. Por exemplo, agora, estou divulgando um texto para milhões de pessoas. Isso, claro, em potencial. Na real, são uns quatro, cinco leitores. Mas, enfim, poderiam ser milhões. E o melhor de tudo: de graça. Há uns cinco, seis anos atrás eu desconfiava daquelas pessoas que diziam que na internet está o futuro do mundo, que a internet vai ser a salvação de todos os males, que a internet é isso, aquilo... Mas, cada vez mais eu acredito nessa profecia. O Hermano Vianna, irmão do Herbert e expert no assunto, disse, em entrevista recente, que deveria, inclusive, serem ensinadas noções de HTML e alguma outra sigla dessas nas escolas do Ensino Médio.
É claro que o processo é longo, vale lembrar que há a exclusão digital, que é conseqüência da exclusão social e tudo mais, mas como sou um otimista confesso, creio num futuro melhor e acredito que o mesmo está ligado diretamente à internet. Não sei exatamente como, mas já que de uns tempos para cá venho falando de assuntos sobre os quais desconheço...
Assim como Economia, a Internet é um espaço sobre o qual pretendo navegar melhor. Afinal, o benefício básico que ela traz é facilitar (muito, mas põe muito nisso) a Comunicação, profissão na qual eu, segundo a colação do último domingo, estou formado.

Júlio

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Sentido?

Para escapar das incertezas que rondam minha cabeça, dou um gole na cerveja. Ando pela vida e mato mil em pensamento. Observo as máquinas que andam pelo centro, parecem gente. Vejo os meninos cheirando cola, parecem máquinas. Desvio-me dos abismos da mente para encontrar respostas. Sinto que estou reproduzindo um modelo previamente estabelecido. São poucos que rompem com os parâmetros. Devo me rebelar? Sob qual causa? Nasci na Zona Sul, nunca me faltou nada e estou cansado da mesmice. Todo mundo por aqui é igual. Por quê? Não quero ser igual, como mudar? Quanto mais caminho e penso, mais incertezas encontro. Até que dou de cara com uma vendedora de docinhos no Centro.
– A cocada é um real. – Ela me diz.
Compro uma e pergunto:
– Como pode ser feliz vendendo docinhos no Centro? – Indaguei.
– A felicidade não está no que você faz, mas sim em como você faz.
Cocei a cabeça, dei uma mordida na cocada e fui embora. Minhas dúvidas ainda não acabaram. Será que estou acomodado? Queria descobrir o sentido da vida, o sentido do trabalho, o sentido do amor, o sentido do bem e do mal, o sentido das coisas por trás das coisas. O calor do Centro me impede de pensar com clareza. Parei num bar e pedi uma Antártica, ela refrescará meus pensamentos. Um barrigudo de bigode veio me servir quando perguntei:
– Como pode ser feliz servindo Antárticas?
– O que mais posso querer meu jovem? Tenho minha mulher, meu bar e minha casa. – Respondeu-me alisando o espesso bigode e sorrindo.
Pensei que o que todos querem na vida é justamente isso.
Ter uma companhia, uma casa e um trabalho. Mas isso eu tenho. De onde vem a insatisfação? Queria poder fazer mais por mim mesmo e pelo mundo a minha volta. Não quero me sentir um insignificante. Que só faz coisas para benefício próprio. Não quero ser um mero reprodutor de técnicas. Queria ir além delas. Quando obterei as respostas para minhas questões? Como ser diferente sem se excluir do mundo? A seleção natural e o tempo são cruéis com o ser humano.
O que estarei fazendo daqui a 20 anos. Queria ser pai de família. Será que vou conseguir dar a mesma condição de vida que meus pais me deram? Em meio a todas essas dúvidas encontro uma certeza. Não quero ser só mais uma máquina que anda pelo Centro. Como não sê-la?

Lucas ou bili ou sei lá o que

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Comentários econômicos de alguém sem gabarito para tanto

Já que o assunto é Economia... De uns tempos para cá, venho tentando investir na bolsa. Mas, por enquanto, deixei de lado, já que tenho outras prioridades e também acho que não é o melhor momento. Não que eu tenha grande quantia para investir e ficar rico com o rendimento na famigerada bolsa. Pelo contrário. O meu objetivo principal mesmo era me informar sobre esse assunto, ver qual é dessa tal de bolsa, que põe a estabilidade econômica do mundo em risco, para, então, quando tiver algo significativo, já estar por dentro e ganhar algum com ela. Confesso que sou leigo em Economia, passo ao largo deste caderno na seção do jornal, ao contrário do Dan, minha fonte de descarrego é Esportes mesmo... Mas, enfim, como futuro jornalista que sou e como dizem que os jornalistas têm de saber um pouco de tudo... Pelo que pude constatar a bolsa e os fundos de investimento são a boa, desde que, claro, você saiba operar. Mas caso não saiba existem corretoras e os próprios gerentes do banco podem lhe auxiliar nessa empreitada. Por exemplo, na poupança, o valor que você tem depositado gera algo em torno de 1% ao mês. Já se você investir num fundo de investimento, como o da Petrobras ou da Vale, que são os mais seguros, rende algo em torno de 5%, 6% (não é por aí, Rafinha?). Bem, toda essa introdução foi para chegar ao ponto que me motivou a escrever esse texto. Se meus cálculos acima estiverem corretos, investir na bolsa é, definitivamente, lucrativo. Mas, o que faz com que certas pessoas invistam e outras não é a informação. Informação, sem qualquer carga de preconceito, é característico das pessoas mais abastadas financeiramente, principalmente quando o assunto é Economia. Portanto, a bolsa de valores, a meu ver, é um dos grandes fatores da desigualdade social e de renda do país, quiçá, do mundo. Enquanto uns, os mais informados (não por acaso os ricos) ganham cada vez mais dinheiro com esses investimentos, as classes mais baixas vêem seu dinheiro rendendo 1% na poupança (quando conseguem algum para investir). Ou seja, a proporção entre a progressão com que o dinheiro de uma classe e outra aumenta é absolutamente...desigual. Mas, como diz o título, esses são meros...

Júlio

domingo, 19 de agosto de 2007

A Grande Depressão

Sempre que fico triste, me refugio na economia. Os números, os índices e a gritaria walstreetiana me causam um efeito quase lisérgico. Ontem, naquela depressão típica dos fins-de-tarde de sábado, peguei a seção de economia do jornal. Li, reli, "trêli"...fiquei ali, meia hora, uma hora, duas...até que me flagrei babando sobre o jornal.
A economia é a ciência humana mais interessante, mais intrigante de todas, porque é um lobo em pele de cordeiro- muitos ainda pensam que é uma ciência exata. Não é. Nunca será. Ela é feita por homens, e é tão imprevisível quanto estes. Prova disso é que os economistas estão sempre errados.
Essa nova crise das hipotecas é didática. O que causou tamanho rebuliço nas bolsas? Uma crise final do capitalismo? Um fenômeno extraordinário vindo das entranhas dos sistemas monetários inter-galácticos? Não. Apenas a simples cretinice e irresponsabilidade de meia dúzia de bancos, investidores e agências de risco, procurando o lucro fácil. Nada mais mesquinho, vil, egoísta - humano.
Depois de duas horas na seção de economia, não resisti - voltei para minha depressão. Minha Grande Depressão.


Dan

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Pelé do jazz

Senta que lá vem história.
Fui encontrar com o Gabriel antes de um show. Os dois muito empolgados, afinal era uma oportunidade única. Iríamos ver o Pelé do jazz atual tocando com sua banda.
Gabriel estacionou o carro na Cinelândia. Cada um comprou uma latinha de skol e fomos a passos largos desviado de tudo que aparecia pelo Centro.
Faltava uma esquina para o teatro do Sesc. Quando subitamente. Dei com o ombro numa carrocinha de pipoca (ou cachorro quente, ou milho, ou amendoim), aquelas de alumínio, pontiagudas, sabe? A camisa, coitada, não agüentou a facada e rasgou-se. Um puta buracão abriu nela.
Porra, a 20 metros da merda do teatro e, ainda por cima, faltando um segundo para o início do show. Fiquei atordoado, não sei se foi pela violência do esbarrão ou se foi pelos goles de cerveja a passos acelerados. Não consegui pensar direito. O Gabriel, nessas horas, tava que se mijava de tanto rir. E eu, com aquele sorriso amarelo de preoucupado tentav encontrar solução para aquela cagada. Ele dizia: "Dobra a manga até em cima que passa batido". Porra, o buraco era do tamanho de um bonde. Não dava pra disfarçar aquela cratrera. Passamos direto pela porta do teatro. Fomos perguntando pra todo mundo onde tinha uma loja preu comprar uma camisa ou um alfaite para costurar a minha, qualquer coisa que me tirasse daquela situação, afinal queriamos ver o Pelé do jazz em ação. Até que um taxista informou que a Taco era a única loja aberta aquela hora.
Tocamos para lá, erramos o caminho algumas vezes, mas conseguimos. Comprei uma camisa de 14 reais. Passei meu cartão mais que depressa. Vesti e ficou legal. No caminho de volta erramos denovo o trajeto das ruas. E eu achando que sabia andar no Centro. Ficamos os dois feito cego em tiroteio. Duas baratas tontas, girando em torno do próprio eixo. Enfim, achamos o teatro. Nenhuma fila, estranhei. Falei com todo orgulho que estava na "lista de convidados". O cara da porta olhou para a lista e em seguida levantou a vista na minha direção. O meu nome realmente estava lá. Mas ele falou que já havia passado meia hora desde o início do show. Se os convidados não chegam na hora suas cadeiras são cedidas a outras pessoas. Que sacanagem. Eu insisti, evidentemente, disse que meu trabalho dependia daquilo. Pedi pelo amor de Deus e tudo, fiz promessas de todos os tipos. O rapaz chamou a supervisora. Ela veio com cara de quem não estava inclinada a ceder. Eu e Gabriel dissemos que podiamos assistir o show em pé. Lá atrás mesmo. Sem problema, de graça até ônibus errado. Ela continuou irredutível.
Até que dizemos que era importante para nós assistirmos aquele show. "Somos da imprensa, pô", falamos. Nada adiantou. Ela pôs um fim na discussão dizendo secamente: "Se fosse tão importante assim, vocês deveriam ter chegado no horário". Que rata.
Fomos embora desolados. Passamos em frente ao cinema Odeon. Iria ter uma rodada de curtas com degustação de cachaça depois. Embarcamos para não perder a noite por completo. Os curtas eram bem 'trashs'. Uns filmes bem loucos. Bizarros, seria a definição adequada para eles. Terminada a sessão. Bebi uma cachacinha e fui embora. É não foi dessa vez, pelo menos fiz uma boa ação. Dei a minha camisa para um senhor de rua. O Pelé terá que esperar, e eu também.

o pobre do Lucas

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Arte, arte, arte....

Os movimentos dos anos 70 caducaram. Não que hippies, feministas, libertários e afins tenham sido idiotas inúteis ou que eu esteja negando sua herança. Não é isso. Devemos muito a eles? Claro. O legado deixado por essa geração é, grosso modo, positivo? É. Mas esses movimentos caducaram no sentido artístico. Não vou falar aqui nem dos excessos e hipocrisias dos movimentos moderninhos que se dizem libertários. Fica pra próxima. Quero falar do esvaziamento artístico da psicodelia, da anarquia, do "vale-tudo".
Para isso, nada melhor que a covardia do exemplo, que é a "forma com que se definem as coisas indefiníveis", segundo Fernando Pessoa. Ney Matogrosso foi o grande nome do "glitter" no Brasil, símbolo da liberdade sexual e do "crepúsculo do macho", como diria Gabeira. Isso em seu tempo era, por si só, arte. Chocar uma sociedade é sempre arte. Sade na França e Wilde na Inglaterra teriam sido, dessa forma, os pais artísticos de Ney e um José qualquer que, num grotão conservador perdido do Brasil, amanhã ou depois, vier a se vestir de plumas e paetês, será filho artístico de todos estes. Mas o que faz Ney continuar sendo respeitado e ouvido na música, na arte, fazendo ele parte de uma sociedade (urbana, moderna, industrial) que já não se choca com a extravagância glitter? Simples- a qualidade. Ney não quis ser para sempre a "bicha velha", um ser exótico, um Serguei, alvo de curiosidade e, no máximo simpatia. Evoluiu, acompanhou a mudança dos tempos e percebeu que o espírito de nosso tempo é libertário e, portanto, a liberdade já não causa impacto, não é novidade, não é arte.
Em uma sociedade permissiva, flexível, "líquida" e, por que não, medíocre como a nossa, a única subversão possível é a qualidade. Seja bom no que você faz. Assim como Romário, nosso artista maior.

Dan

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Tempo Cigano

Li recentemente o livro “Nuvem Cigana”, sobre o grupo homônimo que participou do movimento de contra-cultura dos anos 70, e reunia poetas, músicos e artistas plásticos, entre outros pensadores da época. No livro, que, na verdade, são entrevistas com os membros do grupo, eles relatam suas experiências à época, tanto na produção cultural quanto as loucuras vividas no período, que teve como símbolo máximo as “dunas do barato”.
O que eu fiquei pensando após a leitura do livro é como determinada época ou período é idiossincrático, tem características próprias. Compartilhando minha reflexão com o Daniel, a partir da leitura de um filósofo que só ele e o Dapieve devem ter lido, me disse que isso se chama “Espírito do tempo”. (É isso, Dan?)
Essas atitudes são reflexo da época em que estão inseridas. Acho que a física explicaria isso como ação e reação. No caso, por força da ditadura, que impedia as manifestações artísticas e culturais, tudo aquilo tinha, de certa forma, uma representatividade, ainda que despretensiosamente. Penso cá com meus botões: o que eles fizeram na década de 70 é, teoricamente, passível de ser feito nos dias de hoje: ficar doidão o dia inteiro, usar essa doideira de forma produtiva, no campo das artes, principalmente, não ter muita ambição financeira e todas as outras características que conhecemos das pessoas que viveram o período. Mas, hoje em dia, qual seria o sentido disso?
Outra reflexão que podemos tirar também é sobre o período em que estamos inseridos. Quais são as características do mesmo? Pressa, ambição, consumo? Para não soar clichê, não quero dar juízo de valor nem a uma época nem à outra. Acho que, assim como tudo na vida, cada qual tem suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, acho que nossa geração é muito preocupada com trabalho e família, tem isso como um valor importante. Particularmente, vejo isso de forma positiva (senão chegar à neurose, claro). Enfim, é sempre bom estarmos refletindo sobre o nosso tempo, os hábitos, os costumes e os valores dele.
Mas, de qualquer forma, quanto mais leio sobre as décadas de 60 e 70, pode parecer estranho, mas sinto nostalgia de um tempo que não vivi. Ainda mais depois de ir na Baronneti...

Júlio

Olhares

Acordo e olho para a parede.Vejo que ela continua lá,estática,mas continua me encarando,com seu olhar pálido de cor salmão desbotado.Levanto e vou ao banheiro dar aquela boa e velha mijada matinal.Olho o vaso e ele está la também,com seu olhar profundo, sugando todas as minhas forças em direção a lugar incomum,ainda nao descoberto nem pela fisica quantica.Viro e dou de cara com o espelho.E agora?! Eu me vejo ou o espelho que me vê? Dou uma molhada na cara para acordar e sigo a vida.
Rumo ao meu trabalho,passo meu olhar sobre pessoas que passam seus olhares sobre outras pessoas que passam seus olhares sobre outras...pessoas.
Na volta, eu observo as pessoas me olhando,logo,eu as olho. O que será que elas pensam? E eu? O que diabos eu penso? Não sei...
Quando durmo, eu rezo para o papai do céu olhar por mim e pelos meus amiguinhos. Mas será que ele olha? ou nem existir ele existe para olhar? ou pior ainda, se ele realmente existe, quem olha por ele?! aahh quer saber...nao olhe,deixe pra lá.

drosan

drosan

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

"Fazer o bem sem olhar a quem"... a quem te vê

Vejam o líder dos Detonautas, Tico Santa Cruz. De uma hora para a outra ele começou a aparecer na mídia participando de protestos levantando bandeira contra a violência, contra corrupção e tudo mais que faz nosso país sangrar. Ele se transformou num legítimo formador de opinião. Será que era para vender mais discos? Ou será que ele realmente está engajado politicamente. Pelo menos está contestando alguma coisa, diferentemente da massa artística de hoje em dia. Acomodada. Não faz nada, abaixa a cabeça e suga o máximo que pode da Lei Rouanet.
Agora ele vai fazer um show no mega evento beneficente da rede Globo, o Criança Esperança. Que demagogia. Que politicagem. Ele ajuda, mas faz questão de mostrar para o Brasil que está ajudando. Que falsidade. Se essa moda pega vão estampar camisetas com a frase: “Eu já ajudei os pobres” ou “Eu sou contra a corrupção” ou até “Eu odeio a violência”. Tem milhões de pessoas que fazem a sua parte e ficam no anonimato. Mas no caso dos famosos, ajudar os pobres eleva o conceito e a imagem. Para ajudar os famintos o dinheiro tem que passar pela conta da rede Globo?
Que triste. Espero que as vendas do cd do Detonautas não aumentem por causa da caridade e sim pela música da banda. Para fazer alguma coisa pelo país, o Tico Santa Cruz podia se candidatar a político. Aí sim teria oportunidade de mudar alguma coisa. Aparecer na mídia dizendo ser contra tudo é fácil. Já fazer, é bem mais difícil.
Antigamente os artistas eram perseguidos pelo governo por fazerem oposição. É só ver na história que muitos se exilaram durante o regime militar. O caráter contestatório do meio artístico desapareceu. A vontade de algo novo também. Por isso vemos um monte de músicas iguais. Tudo muito uniforme. Será que estamos precisando de um conflito interno, nas mesmas proporções da ditadura, para que nossa música volte a brilhar como antes? Tomara que não.

Lucas

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Papel aceita tudo, computador aceita até mais, entretanto, vou me arriscar a dar um pitaco aqui neste blog que venho acompanhando há um tempo!
O Brasil vive a seguinte situação: O Estado te enraba de quatro e você ainda é obrigado a pedir desculpas porque está de costas! Opa! Creio que passei do limite do educado, mas vejamos, como ser educado com coisas que a cordialidade só tem maquiado, é um tal de vossa excelência pra cá, nobre deputado pra lá. Um verdadeiro festival de pronomes de tratamento e afins para acobertar mentes sujas e perigosas de pessoas que não merecem ser nem chamadas de pessoas!
Se alguém aqui não conhece a miséria, deveria conhecer, e na hora que se deparar com uma situação miserável pense apenas nos nobres deputados, dos impolutos senadores e de sua excelência o sr Lula, e você verá nitidamente, ali, em um quadro vivo, a situação descrita do sexo estatal ao qual somos submetidos!
A fase da pizza já passou! Hoje em dia tudo acaba com um simples “não sei de nada”, parabéns PT! em pensar que um dia olhei vocês como o símbolo da moralidade! Pelo menos hoje sei de algo: 3 coisas que você só faz uma vez na vida! Nascer, Morrer, e votar no PT.



Gilberto Cipriani é sambista.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Inspiração

De onde vem? Será que é só ficar parado, pensando, que ela vem? Ou será que é melhor caminhar na praia, sozinho, olhando o mar? Usando uma droga alucinógena, quem sabe?
Será que existe esse lance de inspiração ou foi uma coisa que puseram nas nossas cabeças? Se eu ficar aqui escrevendo as primeiras palavras que derem na telha, será que sai uma coisa legal? Ou é melhor pensar bem antes para ter uma idéia super original, daquelas que as pessoas dizem "po, esse cara teve uma sacada bacana"?
E a tal da fonte de inspiração? Será que eu tenho uma? Será que vende na Uru, ao lado da fonte de energia? Ou será que tem lá em Caxambu, perto das fontes de água gaseificada?
E o dia inspirado? Ah, esse existe! "O Kaká ontem estava em tarde inspirada"(até em períodos do dia existe inspiração). Será que se um dia eu tiver no meu "dia inspirado" e não fizer nada de produtivo, tiver doente, sei lá, o meu dia inspirado vai passar e eu não vou saber? Saco...


Júlio

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Por falar em realidade

Há 5 dias só escrevo termos técnicos, jargões acadêmicos, paralaxes teóricas e palavras tão ou mais pernósticas quanto "paralaxe" ou "pernóstico". Gostaria muito de explodir a academia, estabelecer o ensino superior no amor e criar um Fundo Nacional de Incentivo ao Pensamento Livre. Como não tenho a mínima chance, escrevo. Apenas escrevo assim, a esmo.
Escrever é a atividade mais estranha que uma pessoa pode desenvolver hoje em dia. Pra quê isso? Com as mil e uma experiências psico-áudio-visuais da modernidade, escrever virou coisa de neanderthais, primatas, visigodos, assim como ler. Você pode perguntar: qual o sentido de ler? Ler faz todo o sentido, mas a questão é: quanto menos sentido melhor. Depois do "sentir", o "sentido" se perdeu.
Isso parece profundo, sofisticado, mas não é. É apenas a constatação de que a reflexão, o exame de consciência, a busca da crítica na interioridade, que sempre resultaram em genialidades como os ensaios de Montaigne ou a literatura de Dostoiévsky se perderam. Ficamos à deriva, no fogo cruzado da cultura(?) das massas.
Então, você me pergunta, o que fazer? Só vejo uma solução, uma única saída não muito digna ou gloriosa: a amnésia. Esqueçam. Parafraseando FHC, esqueçam o que eu escrevi. Voltemos à realidade. Dura e penosa realidade.

Dan

terça-feira, 31 de julho de 2007

Drops da Realidade

Boa tarde, senhoras e senhores, desculpe incomodar o silêncio da sua viagem, mas trago aqui o saboroso, o delicioso “drops da realidade”. É um produto exclusivo. Essas balas só são vendidas depois de Pans, Carnavais, Reveillons e todo tipo de ôba-ôba. Mas, antes de tudo, senhores, advirto o seguinte, essas balas são de difícil digestão, e, em pessoas mais sensíveis, elas podem provocar náuseas e vômitos. Vou oferecer uma amostra grátis a todos do ônibus.
Ao deixá-la derreter na sua língua, você se lembrará das balas perdidas e guerras entre polícia e bandidos, das gautamas e rorizes, dos presidentes pedantes do Senado que batem pé e não deixam seus cargos e dos aviões desvairados que estraçalham vidas e um país inteiro.
Vocês irão se lembrar de questões momentaneamente esquecidas ofuscadas pelo patriotismo existente na briga entre Brasil e Cuba pelo segundo lugar num quadro de medalhas. No entanto, senhores, o final da bala é o mais azedo, é ele que fará vocês se lembrarem de um presidente da República que se esquiva de vaias e se entoca dentro de seu palácio intocável.
Na minha mão essa bala sai por míseros zero centavos. É o mesmo preço da reflexão e da crítica, senhores. Bom, como ninguém se interessou pelo meu produto, vou embora. Ô piloto, pára a vida, digo o ônibus, que eu quero descer.

Lucas

Rebelde?

Sou tão reacionário, mas tão reacionário, que mesmo quando nado contra a maré, quando pareço um libertário ou algo do gênero, tenho uma justificativa absolutamente reacionária para minhas ações.
Quando se trata de beleza, por exemplo, muitos pensam que eu pretendo revolucionar o padrão estabelecido, só porque digo que não gosto de mulheres perfeitas, que algumas mulheres feias me atraem. Viram? Já me entreguei. Se eu quisesse mesmo revolucionar o padrão de beleza feminina, teria usado as sorrateiras aspas. “Feias”. Mas não é o caso. Sigo o que a tradição, o senso comum, os formadores de opinião dizem. Feio é feio e ponto. Nada de aspas.
Outro bom exemplo é a Lapa. O bairro se moderniza. Novos restaurantes abrem a cada semana, o ambiente vai se tornando mais clean, mais classe média, menos underground. Excelente, não poderia ser melhor, principalmente para quem mora lá. Três vivas para a nova Lapa.
Mas não posso deixar de dizer que eu prefiro a velha Lapa, a Lapa boêmia dos bares sujos e dos mendigos trincados, mas o que importa? É só uma questão de gosto. Do gosto torto e capenga de um poeta que gosta de ver as coisas fora de seu lugar.

Dan

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Em terra de caos aéreo quem tem grooving é Rei

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Lá no alto

Olhe para céu.Vai,sem medo,só basta fazer um movimento de noventa graus com a sua cabeça que você descobrirá um novo mundo. É estranho, na cidade grande ninguém olha para ele... a não ser por medo ultimamente, já que a cada minuto cai um avião nesse caos aereo...Mas vai por mim,tire pelo menos dez segundos do seu dia e olhe.Pode estar nublado,chuvendo ou com um imensurável azul,mas olhe. Eu me sinto bem,parece uma imensa tela a ser pintada pelos meus sonhos e pensamentos,não sei como voce vai se sentir,mas vale a pena...
Os cientistas falam que aquele lindo azul é apenas visto por nós, reles seres terrestres,porque após 16 kilometros acima da superficie,tudo se torna um imenso fundo negro imutavel,ENTAO APROVEITE!imagina só os coitadinhos dos extra-terrestres... nunca poderão admirar esse nosso azul...
E quando a noite vem, nem me fale... ah a noite... aquelas estrelinhas sacanas a brilhar incessantimente, muitas ja morreram, muitas estão nascendo,é praticamente um misto de suruba e ciclo natural acontecendo sobre nosssas cabeças.
Agora eu já entendo o mestre Tim Maia quando estava na sua onda Racional,porque eu subi,é acredite,subi sim,lá no alto! E vi sim,acredite, a verdadeira luz da humanidade! Ah coitadinhos dos extra-terrestres....

drosan

terça-feira, 24 de julho de 2007

Considerações sobre o Pan

Pode parecer bobo, piegas, ou quem sabe até demodé, mas assistindo aos Jogos Panamericanos, eu percebi, definitivamente, que o esporte me emociona. Se pudesse ficaria vendo as competições 24 horas. Logo eu, que sou fanático por futebol e só queria saber do esporte bretão. Não sei definir se o meu sentimento é puro patriotismo, já que quando acabarem os Jogos, provavelmente eu não assistirei às demais modalidades, isso, claro, até chegarem as Olimpíadas.
Sempre que o Brasil ganha uma medalha de ouro, eu fico esperando para ouvir o hino nacional. Céticos de plantão podem me taxar de ufanista, de que só estou aí para a “hora do Brasil” nos esportes e esse papinho batido... Mas eu acho o sentimento de patriotismo uma coisa legal. É a tal da satisfação narcísica, que estudei na faculdade. Quando alguém que, de certa forma, representa seu grupo, no caso, o Brasil, se dá bem, você também se sente um pouco vitorioso. Afinal, é de representações que a vida é feita.
A cena que mais me emocionou até agora foi a da primeira medalha de ouro do Brasil: Diogo Silva, do tae kwen do, chorando ao ouvir o hino nacional. O que me impressiona e até me fascina, de certa forma, é o fato de esses atletas, muitos deles considerados excluídos da sociedade, como o próprio Diogo (que era “menino de rua”) representarem com tanto orgulho esse mesmo Brasil que lhes dá as costas. Podem dizer que denota uma certa inocência, ou, quem sabe, ignorância da parte dos mesmos. Eu prefiro chamar de esperança.

Júlio

sábado, 21 de julho de 2007

Não perturbe

Às vezes me dá vontade
De escrever um poema assim
Bem desleixado
Meio malacabado
Um tanto descabido
De logo depois da praia
E antes do sono da tarde

Porque eu tenho sei lá
Essa coisa neojecacarioca
Que me dá uma preguiça colossal
De escrever algo realmente interessante
Que entre pros anais
Que adentre as coletâneas

Tente também ao cair da tarde
Sabe, quando o céu todo se alaranja
E o vento nos cochicha
Sutilezas nos ouvidos
Escrever um poema fabuloso
Um épico da prosa

Um...

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz



Dan

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O Bloco dos Insignificantes

Sou poeta. Não que isso seja alguma vantagem. Ou desvantagem. Apenas sou, se não pela qualidade, pela insistência. Pois bem, sempre pensei que apenas poetas poderiam entender poetas, garis entender garis etc etc...
Mas hoje descobri uma categoria profissional, esportiva, que é da mesma linhagem, da mesma estirpe dos poetas. É como se fôssemos irmãos gêmeos. Nós e os atletas do pólo aquático.
Com quatro ingressos na mão, fui ao Parque Júlio Delamare, onde acontecem as partidas de pólo aquático feminino do Pan. Tentei vendê-los- não consegui. Tentei dá-los- não consegui. Por absoluta falta de opção, acabei entrando no Parque, onde meia dúzia de heróis assistiam às partidas e um Cauê constrangedor gritava gooool com um ânimo bem maior do que o das próprias jogadoras.
Cerca de 1% dos brasileiros lêem poesia. Deve ser próximo o percentual dos que já assistiram a uma partida de pólo aquático. Acho que os atletas do pólo devem se sentir como eu- solitários, meio ridículos, quixotescos. Somos o lado B das letras e do esporte.
Mas sou um otimista. Podemos nos unir aos golfistas, aos torcedors do América e aos moralistas e formarmos um bloco, um bloco de carnaval, um grande bloco dos insignificantes.

Dan

Ônibus

Andar de ônibus pode ser um inferno. Estava na Nossa Senhora de Copacabana quando o avistei. Um gigante amarelo, 127: Rodoviária. Fiz sinal, ele passou por mim e parou uns 5 metros à frente. Dei uma corrida singela e adentrei. Ar-condicionado? Nessa linha não tem, pelo menos economizo meu RioCard. Era um dia daqueles que o sol e o calor fazem questão de castigar quem trabalha e abençoar quem tá na praia.
Eu, malandro que sou, fui sentar nos assentos da direita, onde o sol abrasador não bate. Pena que a malandragem não é somente virtude minha, os assentos da direita estavam todos ocupados por trabalhadores como eu. Paciência. Sentei-me num lugar quentão mesmo, daqui para o centro são 20 minutos só, não morrerei até lá. Abri as janelas e em seguida liguei meu poderoso iPod, que me privará das buzinas frenéticas, dos motores histéricos e de qualquer outra aporrinhação. Abri o jornal e aproveitei a viagem.
No ponto seguinte entrou uma mulher carregando um bebê de colo. Ela sentou-se no banco em frente. Num dado momento o bebê desandou a chorar. Não sei se foi por causa do calor ou se foi de sacanagem mesmo. A cada freada do busão a criança esperneava ainda mais. Cada vez mais alto e mais alto e mais alto. O meu potente iPod já não conseguia abafar a histeria da criança. O último volume era inútil. Todos no ônibus se entreolhavam com vontade de esganar a pobre criancinha, comigo não era diferente. Teve uma hora, depois de tanto chorar, que a ela olhou para mim e abriu um sorrizinho. Por um momento achei-a tão bonitinha, me derreti por aquele gesto. Ingênuo eu, logo em seguida ela mudou a expressão e mergulhou no pranto, só que dessa vez ainda mais alto e estridente. Pronto. Logo constatei que o choro era só de sacanagem comigo e não por qualquer outro motivo.
O sol batia com força no meu rosto que já estava suado, meu corpo um tanto melado e a blusa grudada. De repente adentra no ônibus uma mulher com o mesmo peso do Tim Maia. Ela suava quinze vezes mais do que eu. Mais até que o próprio Tim em dias de show no Canecão. Com esforço descomunal conseguiu passar pela roleta. Cruzei meus dedos, cerrei os olhos e fiz pensamento positivo. “ela não sentará comigo, ela não sentará comigo”. Senti um esbarrão e quando olhei estava sentado com a mais nova integrante do Fat Family. Não que eu tenha preconceito com gordinhas, mas gordinha é eufemismo para essa mulher.
A cada balançada do ônibus ela encostava o ombro no meu. O ombro suado marcava minha camisa social. Não sei se era de propósito, mas quanto menos eu queria mais ela chegava perto. Passados alguns minutos senti o banco estremecer e um cheiro horrível invadir minhas narinas. Meu Deus, um peido? Que nojo. A banheira se levantou e saltou do ônibus levando consigo aquele cheiro de quem comeu bife de fígado no almoço. Todos no ônibus me olharam como se tivesse sido eu o autor daquele peido mortífero.
A moça com a criança, naquela hora, já tinha saltado. A gorda também. Só assim pude relaxar e curtir o restante da minha viagem em paz. A música do meu iPod estava contagiante e não me contive. Assobiei a melodia deliciosamente. Na hora do refrão senti alguém cutucando meu ombro. Olhei para trás e era um senhor da idade do Zagalo, tão velhinho, não sei como se agüenta em pé, não sei como ainda anda de ônibus. Minha vó na idade dele já tinha morrido. Ele virou-se para mim e disse: “Ô rapazinho, você está atrapalhando o silêncio da viagem, respeite as pessoas do ônibus, sem educação!”
A veia do meu pescoço saltou e fiquei vermelho de raiva, quase explodi. Por sorte consegui conter minhas emoções e então me acalmei. É, Andar de ônibus pode ser mesmo um inferno.

Lucas

terça-feira, 17 de julho de 2007

AHH O CARNAVAL

Esse clima todo de pós-Paraty, Pan e ferias me deixou com saudades... saudades do carnaval... Quero que ele chegue logo...Tantas retiscencias nao são suficientes para minha espera agonizante. Estamos em julho ainda, mas ando pelas ruas e vejo turistas,pessoas sorrindo e clamo para que ele venha,com seus monoblocos e empolga as nove, seus bumbos e tamborins,suas cabeleiras do zeze e marias sapatão... Quero as barraquinhas de batidas,as meninas perdidas,as sambadinhas desajeitadas,a embriaguez bem-vinda. AHH O CARNAVAL... Nao posso reclamar que a vida ja é uma festa, mas nao há festa igual como naqueles dias de fevereiro...Poder flanar pelas ruas do Rio antigo, pela Lapa... ah a Lapa...Eu e meus amigos picaretas temos até ideias para o do ano quem vem, quem sabe um bloco... apesar que ja somos um bloco,um bloco de pierrots maltrapilhos atras de suas fantasiosas colombinas... AHH O CARNAVAL...

drosan

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Lá pá Lapa

Sempre quis escrever um texto sobre a Lapa. Agora que temos um blog acho que chegou a oportunidade....
Não há como falar sobre esse tradicional reduto da boemia carioca sem fugir do lugar comum de que ela é a cara do Rio, é onde se dá a verdadeira democracia cultural e que, não por acaso, reflete o jeito de ser do carioca. Ali, travestis, patricinhas, mendigos e playboys convivem (convivem já é um pouco forçar a barra, freqüentam é melhor) sem qualquer distinção de cor, classe, credo ou time de futebol.
Agora que já falei em linhas gerais o que todos já comentaram sobre a Lapa, vou tentar ir mais para minha visão particular. Até pouco tempo não sabia sequer o nome de uma rua da Lapa. Um fato curioso a meu ver. Pode até ser ignorância minha, mas acho que também há outras pessoas que freqüentam o lugar regularmente e não sabem. Acho que a Lapa, justamente por não ter divisões ou as distinções citadas acima, não tem a necessidade das ruas a delimitando (salvo para os carteiros). Quando você está na Mem de Sá, na Lavradio ou na Riachuelo, você simplesmente está na Lapa. Para se localizar, é só falar que está perto do Circo ou na rua do Democráticos ou depois do Arco-Íris...
Com certeza, a Lapa, lugar que freqüento desde os 15, 16 anos, tem uma participação importante na formação da minha personalidade e da minha cultura. Qual, exatamente, eu não sei, mas posso assegurar que é algo positivo.
Se um dia eu sair do Rio, um lugar que sentirei muito falta, além das praias, claro, vai ser da Lapa, até porque acho que não há no mundo um lugar como esse.

Júlio

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Libertadores

Não acredito no Botafogo. Não acredito no PSOL.
A maré já está virando para o alvinegro. Dodô suspenso, perda de mando de campo...e por aí vai...daqui a pouco vem o São Paulo e acaba com a festa. É a triste sina do botafoguense, a crônica de uma morte anunciada. E ninguém cala essa sina.
Já o PSOL vai bem, por enquanto, cumprindo o papel que a oposição não consegue (ou não quer)cumprir. Se dependesse somente de DEM e PSDB, provavelmente os casos Renan e Roriz teriam sido solenemente abafados.
Mas é sempre bom lembrar que o PSOL é um partido pequeno, minúsculo. E não se pode depositar todas as esperanças da democracia em um partido, quanto mais em um partideco dito socialista, dito "bastião da moralidade".
Aliás, esse discurso falso moralista, pra mim, é que afundou a candidatura de Alckmin. Querer fazer alguém acreditar que o PSDB é a "casa da ética" foi um erro estratégico crucial, à medida em que a corrupção atinge todos os partidos, e em maior escala, os maiores partidos.
Se o PSOL quer realmente tornar-se um partido representativo, deve abandonar o discurso, tão usado nos anos 90 pelo PT, de "última trincheira da moralidade", e começar a pensar em um programa sério de governo, que inclua medidas e reformas que ajudem a combater a corrupção.
Melhor deixar esse papo de libertadores para o Botafogo...

Dan

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Lá vem ele. Cadarço desamarrado, calça maltrapilha, gola desgastada, cabelo ensebado, dente mal escovado. O desleixo em pessoa. Tão acomodado que nem esquentar comida no microondas ele esquenta. Se está numa escada rolante e ela enguiça, ele fica ali parado como se estivesse preso num elevador. Difícil é medir o quão não faz nada. Se toma um estabaco, nem a poeira sacode. Sonha em um dia ser alguém importante, um ator de cinema ou um executivo, mas o conforto da cadeira o impede de sair do lugar. Move-se com extrema lentidão para não cansar. Dizem uns que é por causa de drogas, outros dizem que já nasceu assim. Ele é metade zero a esquerda metade zé mané. Vez ou outra acorda para a vida, dá um pulo da cadeira e planeja mudança. Rapidamente deixa as ambições de lado e vai assistir televisão. Até leu alguns livros, mas prefere o computador. Pode ser que exista, em cada pessoa, um pouco desse ser descrito acima. Caso tenha se identificado, não sinta culpa. Você é absolutamente normal.

Lucas

Viva a palavra

A festa literária em Paraty reuniu seu quinto compêndio de autores, poetas, diretores de teatro, cineastas, jornalistas, todos bebendo em uma unica fonte: o livro.
O encontro destes cérebros privilegiados vem num momento providencial. A cada dia o mundo caótico em que vivemos, com a violência urbana que hoje impera em toda grande cidade do mundo, a corrupção apocrifante do nefasto sistema político brasileiro, não nos deixa outro caminho senão um tratamento psiquiátrico urgente, ao invés de uma CPI. Em Paraty, onde o sol invernil lambe os casarões coloniais, loucos por livro sentam-se na beira de um banquinho na Praça da Matriz e pedem companhia a vida que passa. Passam sujeitos, verbos, adjetivos, e todas as palavras-coisas de Manoel de Barros.
Apesar da ausência de muitos autores brasileiros nas palestras, o evento trouxe a realidade esquecida de Serra Leoa, embates contundentes entre inglês e americano, e a última mesa. Esta teve toda a suave intensidade que permeou a festa e o lugar. Uma conversa sobre teatro e literatura com Paulo Jose, Bortolloto e Bosco Brasil, aplaudida de pé pela platéia.
Ainda do lado de fora, pelas pedras palavras de Paraty, encontra-se um estado poético que é, essencialmente, inefável. Tornamo-nos cúmplices dessa música que alimenta a autenticidade dos defeitos, em vez do polimento do senso comum.

por joao vicente

"Os mortos de sobrecasaca"

O poema que dá origem ao nome do blog.

"Os mortos de Sobrecasaca"

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos.
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava,
que rebentava daquelas páginas.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 9 de julho de 2007

OLHA O MOMENTO.... PASSOU! A FLIP PASSOU

Flip, um fliperama de emoções.
Quem sou eu, que rei sou eu? Eu e meus companheiros de topadas paratienses passamos bons momentos na cidade real. De um almoço na dona Baiana à um sarau na casa do Principe João, tudo correu como o inimaginavel, ainda bem. Em conversa ja descrita pelo amigo inestimavel Julio, meu papo com o dono da coroa foi tao bom que a unica coisa que me lembro é de nao lembrar de nada.O brinde à beira da lareira monarquica foi pouco comparado a emoção de presenciar amigos como Dudu Perere e Ivy se apresentando para um grande publico ou de ver nosso irmao Daniel divulgar seu trabalho para todo o Brasil.
Nao sei se foi a cachaça,o clima frio,os megafones eloquentes ou as estrelas presentes tanto no céu como no solo paratiense que me fizeram enxergar o mundo cultural que existe ai fora e que nao aproveitamos.Nao sei se sei,sei,sera que sei que andar na parte central das ruas de Parati é a boa para evitar topadas(obrigado pelo conselho lioju) só sei que o Joao é um nao sei, porque se alguem sabe oq ele pensa, esse alguem TEVE QUE SUBIR LA NO ALTO PARA VER, ENERGIA RACIONAL.... entao... será que sei?

drosan favarato

Parati patrimônio

No meu último texto aqui no Sobrecasaca, fiz algumas previsões sobre a viagem a Parati. Errei todas. Vejam lá: a senhora chata? Não havia. O dedão? Está intacto. Mas a previsão mais furada de todas foi a do pedinte, porque na prática, o pedinte da cidade fui eu.
Abordei praticamente todas as pessoas da cidade, com um exemplar de meu livro em mãos e um lero-lero furado. Cantei, dancei e contei a trágica história da minha vida. Consegui aporrinhar a cidade de um modo que nunca antes ela havia sido aporrinhada.
Se eu fosse prefeito de Parati, declararia guerra ao resto do Brasil, construiria uma muralha e declararia a independência local. O príncipe Orleans e Bragança poderia fazer isso, mas só quer saber de cachaça e poesia. E já que é assim, vamos continuar invadindo a praia deles todo ano.
Já ia me esquecendo da última furada que dei no texto anterior. Eu, inocente, acreditava que, ao menos, fugiria das azucrinações típicas do Rio e citei o oba-oba do Pan. Qual não foi minha surpresa, quando, hoje de manhã, vi uma multidão de paratienses correndo atrás da tal tocha do Pan. Senhoras em transe, crianças chorando, cavalos em pânico...
A humanidade quer, agora, que Parati vire seu patrimônio. Parati caminha muito bem sem a humanidade. É melhor cair fora, rapidinho.

Dan