quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Pelas ruas que andei


Nada como ver o tempo passar, nao é? Por vezes vou a janela vê-lo. O tempo da minha janela começa lá no Leblon e vai até Copacabana, quando sai do alcance da vista para entrar no terreno da imaginação. Ao passo, acompanho sua andança e as vidas que nele habitam. E aqui em Ipanema, falta tempo às tantas e variadas formas que alvoroçadas observo estonteante.
Esqueça cartões corporativos, desmatamento da Amazônia, festa do Oscar. Andar por estas calçadas inspira até o mais cético dos cronistas. A mistura de cores e sons que compõe a paisagem imagética do transeunte vai além dos livros de Clarice Lispector, Guimaraes Rosa e daí por diante. Se acompanhasse um dia desses personagens anônimos, daria para fazer um apanhado geral da sociologia brasileira, um conto de Machado de Assis e um estudo sobre a tendência anamorfizante da macroeconomia nos países em desenvolvimento.
Lá pelos lados da Vinicius de Moraes, vem o vendedor de espanador. O próprio nome ja é uma poesia: vendedor de espanador. Venho andando sorrateiramente atás do ambulante e atesto sua eficiência em vender espanadores. Ele tem uma musiquinha que ajuda na sua publicidade, não sei se repararam mas espanador rima com computador. Pronto, resolvido o problema do meu teclado. E olha que não sou o único deslumbrado. Aqui se encontra de tudo, de carro com controle remoto à bolsa que vira canga que vira pochete que guarda no bolso. Mais adiante encontro com o vassoureiro, como o mesmo se denomina. Há uma certa concorrência entre ele e o vendedor de espanador: Tentam empurrar, cada um com seu utensílio, ao que verdadeiramente não se destina. Nesses tempos capitais, qualquer concorrência é uma ameaça.
O vassoureiro leva as vassouras lá no alto, assim a dona-de-casa que tá lá no Leblon ou a outra em Copacabana conseguem avistá-lo. Faz o percurso ida e volta trocando as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Piraja. É um atleta. Enquanto estou ainda na Garcia D`avila, já vendeu metade na ida e vem voltando com a maior disposição. A alegria das ruas é inigualável, principalmente no Brasil. Morei um tempo fora e pude perceber que o segurança da lojinha que comenta a rodada do final de semana com seu colega que está do outro lado da rua, só o encontraria por aqui. Ou então no morador do primeiro andar do prédio logo em cima da lojinha. Ele só não olhou para baixo, porque se olhasse veria o medigo do skate.
O mendigo do skate nasceu sem as pernas e leva a vida andando de skate. Deve ser ruim pois não consegue nem pedir dinheiro no sinal. Volta e meia, aparece com uma cervejinha a tira-colo dada pelo dono do bar ali da Garcia; reclamando da vida e discutindo com o segurança o pênalti roubado do último jogo. Fico pensando que se não fosse o futebol o que seria da cervejinha do mendigo do skate. Na verdade, ele só quer contrariar. Troca meia dúzia de desaforos com o segurança e vai perturbar outro, o cara das vassouras, que vem voltando e não perde tempo: "olha, ô miudo, vou te varrer se você não sair da frente, hein!"
A louca de Ipanema não apareceu nesse dia. Para quem desconhece, trata-se de uma mulher com seus 50 e poucos, que não voltou dos anos 70 e tantos, e vive tentando encontrar a passagem secreta de volta para casa. A década de 60 e 70 nos rendeu bastantes histórias, mas vejo que os tempos atuais tendem a produzir mais figuras por aí. Há que o diga os porteiros, eternos vigilantes da vida alheia. Não fizeram o curso de espionagem na CIA pois vangloriam-se de estar, de novo eternamente, e como eles mesmos afirmam, a meio passo de virarem síndicos.

Joao Vicente

Um comentário:

Lucas disse...

um dia o mendigo do skate quase me atropelou... ele veio voando, eu me esquivei e ele deu olie e uma rasgada.... olhou-me e disse: "se num desviar eu passo por cima mesmo". furioso, chamei o vassoreiroooooo... e ele passou o rodo em geral.
só faltou o cara que vende cuscus, que em copa é tradicional tb.
"Olha aê o cuscus aê".....
crônica muito maneira, joão !!!!