segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Mamãe cheia

Pessoal,
gostaria mesmo de escrever aqui algo sério, uma crítica ao mundo que nos cerca talvez. Mas, no momento, estou sem inspiração e saco. Para literatura, porém, minha cahola está a mil – mesmo que não saia nada dela digno de prêmios. Aí vai um continho que escrevi nos raros momentos de ócio no estágio. Aproveitem.
***
"É uma menina", disse o obstetra. A mãe, pesando 76 quilos, ouviu o primeiro choro do bebê acompanhada do marido, que comemorava com os olhos empapuçados de ternura. Ainda que inchada pela gestação, a mãe era linda. Na juventude era considerada a mulher mais bonita da turma que pegava praia na Figueredo Magalhães. Os desejos de grávida obrigavam-na a comer loucamente. Sorvete com leite condensado era quase uma rotina da madrugada. O maridão zeloso atendia a todos os pedidos da esposa e por diversas vezes correu até a única padaria 24 horas do bairro para comprar dúzias de queijadinhas. Pratos duplos de comida eram devorados em velocidade de cruzeiro pela mamãe.
Após o quebranto, a comilança continuou e os desejos súbitos apareciam madrugadas atrás de madrugadas. A barrigona não murchou e inflava feito balão, não parava. A moça linda na juventude dava lugar a uma imensa máquina engolidora de pipoca de microondas. O marido buscava em outras camas a delicadeza do corpo feminino. Mesmo quando estava com outras, fantasiava sua esposa aos 20 e poucos anos. Cada vez mais ausente e frustrado. Desde o nascimento, a mulher lhe recusara quase todas as propostas de amor. Sob a promessa de que retribuiria com um bolo de chocolate, fizeram sexo pela primeira vez desde que a pequena veio ao mundo. Saudoso com as antigas noites de calor, chorou quando teve a sensação de que estava deitado com o Tim Maia.
Quando a menina fez dois anos, a mulher pesava 110 quilos. Seus braços e pernas estavam imensos, flácidos e buliçosos. O homem sinalizava seu descontentamento, mas a mulher não desgrudava do doce de leite, que era devorado as colheradas. Um dia, um tanto exitante, o marido desapareceu para nunca mais regressar. Ela sentia falta de sua companhia e de seus vôos à padaria. Uma tristeza absoluta a invadiu. Depositou na criança a culpa por ter se transformado naquele monstro glutão. Viu sua juventude perder-se em meio aos doces e às responsabilidades maternas. A mãe foi tomada por um ódio mortal.
Ao completar quatro anos de idade, a criança viu sua mamãe com 145 quilos. A mulher não parava de engordar e caminhava a passos largos para os 160 quilos. Tentou todas as dietas, percorreu todos os caminhos. Mas a vontade de comer sempre superava a batalha contra a balança. Quando se sentia só ou estava com um problema, se debulhava numa orgia de quibes, empadinhas e brigadeiros regada a doses cavalares de coca-cola. Num dia cinza de junho a cidade amanheceu com uma notícia incomum: uma menininha de quatro anos foi encontrada morta boiando na Lagoa Rodrigo de Freitas. Naquele mesmo dia, quando a voz de prisão lhe foi dada, a mulher emagreceu 3 quilos e meio.

Lucas

3 comentários:

dan disse...

boa garoto!
é meio macabro, mas no final a mãe podia devorar a criança

jv disse...

tu anda trabalhando no caderno policial?
bem escrito mas porra tu teve um pesadelo? foi isso?

Lucas disse...

não sei se foi um pesadelo ou uma lida rápida no "O povo".... um dos dois !!!