quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

INEVITÁVEL

Por sugestão da minha superempolgada namorada Duda fiz meu primeiro trabalho voluntário. Ela e sua trupe de aspirantes a psicólogas desenvolveram projeto que prevê visitas mensais a um asilo com o intuito de alegrar a vida daqueles que estão muito próximos da curva da morte. Eu iria mais como jornalista do que qualquer coisa. Minha incumbência era filmar. Aceitei sabendo que minha participação não se restringiria ao registro.
A Duda planejou um baile com música, dança e brindes para inaugurar o projeto. Eu estava eufórico e apreensivo com a idéia. Fomos ao asilo e, recebidos pela madre Justina, começamos a enfeitar o salão de festas cheio de cadeiras e com uma mesa de biscoitos e guaraná no canto. Começamos a encher os balões e a cada baforada os velhinhos enchiam a sala. Uns vinham em cadeiras de rodas e uns andavam com dificuldade, amparados por enfermeiras ou acompanhantes. Havia também aqueles que as pernas eram fortes, porém a surdez ou a cegueira os castigavam. Colocamos a música e com cinqüenta participantes o baile começou. Incentivamos a dança prometendo brindes para os mais animados.
Eu que estava lá só para fazer o registro não fiquei um segundo atrás da câmera. Fui o primeiro a tirar uma senhora pra dançar, as meninas por sua vez chamavam os senhores. Ofegantes e alegres, os velhos davam gargalhadas, formavam pares, contavam suas histórias de vida, ganhavam brindes, comiam biscoito e se divertiam com a visita atípica. Entre uma dança e outra aproveitava para conversar com cada um deles. A atenção é um bem muito precioso quando se vive isolado da família. Os velhos contavam suas histórias e meu coração apertava a cada relato.
Durante toda a visita estive feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por levar um pouco de alegria e atenção àqueles senhores e senhorinhas. E triste por constatar a violência que é envelhecer, na maldade que o tempo faz com a gente. O nó na minha garganta aumentou ainda mais quando entendi a solidão daquelas pessoas. Longe dos parentes, elas aguardam a morte torcendo para que seja indolor. Ouvi mais de trinta vezes a expressão “Deus te abençoe, meu filho”. Não sei ao certo como a vida me retribuirá pelo feito, mas uma coisa é certa, aqueles velhos fizeram eu me sentir melhor.
Há muitas incertezas nesse mundo. Muita discordância. Diferentes visões políticas, sociais, religiosas, ideológicas. Mas uma certeza coloca todos os habitantes do planeta como iguais: a certeza da Morte. Inevitavelmente, o ser humano vive em contagem regressiva desde o momento do nascimento, ou melhor, desde antes dele. O tempo tem efeito corrosivo sobre a pessoa. As feridas na alma vão cicatrizando e deixando marcas profundas no corpo. Foi numa conversa com a sempre entusiasmada em assuntos relacionados à psicologia e à vida e profunda entendedora da subjetividade, minha namorada Duda que abri a cabeça para a seguinte questão: simultaneamente, o tempo é gentil e cruel com o ser humano.
Gentil por que ajuda a superar traumas, cicatriza feridas na alma, dissolve mágoas, cura mazelas sentimentais e dores de cotovelo. O tempo mostra sua face cruel quando arranca rapidamente a juventude da pessoa, apodrece a carne morosamente, promove um genocídio de neurônios a cada novo ano, surrupia o bom desempenho dos olhos. Marcas e mais marcas aparecem no corpo e na mente simbolizando o prenúncio dela: a Morte. Há quem diga que não a teme, há quem sinta pavor só de tocar em seu nome, mas uma coisa é certa: ela é inevitável.

Lucas

2 comentários:

Lucas disse...

Tenho um problema em sintetizar meus textos. Perca cinco minutos do seu dia e leia essa reflexão. É indolor, preguiçosos!

duda disse...

ohnn tão bonitinhoo dançando com os véinhos...teve uma que até convidou ele para um café...ohhh