sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O gosto pelo torto

- Lucas -

Há algum tempo tenho alimentado afeição pelo imperfeito. Confesso que mudei ao longo da vida. Quando era pequeno, por exemplo, só me apaixonava pela menina perfeita, que possuía a beleza higiênica, irretocável. Para mim, o imperfeito é belo. Teve épocas em que cheguei a me interessar pelas gordinhas, tradicionais imperfeitas de corpo. Não me levem a mal mas minha namorada é um exemplo, ainda que diminuto, de como a imperfeição pode ser bela. Ela tem duas pintinhas ao lado da boca. Isso é uma vírgula, um tropeço, um descaminho estético, que para mim é absolutamente lindo, sublime. Sem esse “tropeço” sua beleza não seria completa. Que fique claro que as imperfeições, no âmbito estético, são deslizes e não aberrações como pintas peludas e dentes acavalados.
O fato é que as imperfeições são o sal do mundo. Imagine o tédio de uma cidade sem defeitos, feito casa de obsessivo por arrumação ou limpeza. Nenhuma almofada fora do lugar, nenhum pelo de cachorro voando impunemente, a cor da louça combinando com a da cortina. É simplista, admito. Mas imagine o que seria do rico se não houvesse o pobre, do Eu se não houvesse o outro.
Engraçado, pode parecer forçação de barra ou até loucura da minha parte, mas essa antítese entre perfeito e imperfeito está entranhada na disputa entre os candidatos à Prefeitura do Rio. De um lado está o Eduardo Paes. O que desde o começo esteve à frente na disputa, o que “conhece o Rio”, que tem “experiência e competência administrativa”, um político de centro, o preferido dos certinhos, o perfeito. Do outro, está o Gabeira. O azarão, o “seqüestrador subversivo”, o afeminado de tanguinha que defende a maconha, o de esquerda, o imperfeito. Na realidade, ele é o perfeito imperfeito. Não sei se já mencionei, mas há algum tempo tenho alimentado afeição pelo imperfeito. Quem pensa igual, digita 43 e confirma.

Um comentário:

dan disse...

´a realidade à nossa volta já é tão torta, tão surreal, tão absurda que ando meio enjoado das imperfeições. E vale lembrar que o sucesso político do Gabeira está ligado à negação de suas imperfeições. Vendo-o de terno, fala clara e grave, mais parece um pai de família, gerente de vendas de uma rede de atacado, que leu por acaso as orelhas de Marcuse.