terça-feira, 1 de abril de 2008

O jornal e a escultura

(Esta história foi inspirada em fatos reais)

Poucas pessoas desconhecem o que é viver em comunidade, mas muitas delas estão quase perdendo o sono por causa disso. Foi o caso de seu Ernesto, morador de um antigo prédio de cinco andares na Tijuca, próximo ao famoso terreirão do Cardozo, nas cercanias do Maracanã.
Segunda-feira pela manhã, descia o elevador como era de costume para pegar o jornal na portaria. Fazia questão. Dava bom dia ao porteiro - um bom dia também ao zelador, que nesse horário se encontravam para o um cafezinho bem passado - os dois respondiam orquestradamente ao aposentado: "Bom dia seu Ernesto". E então caminhava ele até a porta para recolher o matutino, coisa que o acompanha religiosamente desde os tempos do Colégio São José, onde era diretor e para onde ia se sentar à sombra de uma daquelas frondosas jabuticabeiras para ler as notícias do dia. Porem, é aí que vem um impasse.
Os jornais já tinham devidamente sido entregues na porta de cada apartamento, um fato muito estranho, porque seu Ernesto fazia questão de descer até a portaria para pegar o seu, e todos sabiam muito bem disso. Ele só não contava com o novo vigia noturno, que aproveitou a ocasião para realizar um belo serviço na sua primeira semana e antecipou a entrega. O porteiro reiterou que todos os jornais foram deixados corretamente, inclusive o de seu Ernesto, porém algo havia acontecido no momento em que o bendito ficou ali a deus-dará, para algum outro espertalhão roubar. Já bastasse os serviços mal prestados pelo condomínio, a obra do vizinho da frente, agora seu inalheável e inprescindível jornalzinho matinal fora surrupiado na mão grande, bem debaixo do próprio nariz!
Num primeiro brainstorm calculava, junto ao porteiro e o zelador, os mendigos que circulam pela frente do prédio todas as manhãs, afim de fazer um levantamento da invasão. Contudo, concluíram que, deste modo, estaria tudo registrado nas câmeras - o que não se concretizou. E quem se arriscaria a roubar um jornal, um simples jornal? Somente o dele que havia sumido, logo o dele.
Indignado com a situação, seu Ernesto pensava e despensava quem é que teria ousado meter a mão no que é dos outros. Convencia-se consigo mesmo que tinha sido algum morador do edifício, não arredava o pé da decisão, e nesta altura do campeonato já possuía nas mãos uma lista com todos os que não eram assinantes. Suspeitos fortíssimos, afinal ir à banca comprar um determinado jornal não vale a pena quando se tem uma variedade enorme deles bem na porta de casa. Passou alguns minutos analisando a lista e descobriu uma senhora que fabrica pequenas peças de argila para revenda em sua casa, vizinha do andar de cima, a quem fez sem titubear uma ligação emergente no interfone:
"Dona Alzira?"
"Sim sou eu mesma, o que deseja?"
"Olha, a senhora não teria pego, por engano(sic), o jornal desta manhã que se detinava ao apartamento 303?"
"Que isso, meu filho, você está me chamando de ladra?"
"Não, dona Alzira, eu só queria me certificar..."
"Olha aqui, meu senhor, se o senhor não tem mais o que fazer ao inves de ficar me importunando, me dê licença pois eu tenho!" E bateu o interfone.
Aquela conversa suou em tom desanimador para seu Ernesto, mas algo lhe dizia a permanecer com seus pressentimentos irredutível. Para o aposentado, era ela o autor do crime: "Uma senhora que comercializa vazos - de cerâmica - deve precisar de um embrulho, no mínimo um forro para o chão do atelier." Foi duro pensar que seu querido informativo servira de pouso para pingos e mais pingos de argila molhada. Mais duro ainda foi pensar como ele iria arrumar um jeito de reavê-lo antes que ocorresse a primeira mancha. Foi quando teve a brilhante idéia. O plano que seu Ernesto arquitetava desvendaria toda verdade por detrás da escultura de dona Alzira.

(continua no próximo post)

Joao Vicente

4 comentários:

dan disse...

viva dona alzira!!
a propriedadxe é um roubo!!

Lucas disse...

muito bom.. hahhaha.. o mistério ficou no ar...
peguem a alzirinha !!

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sugestoes para o plano de seu ernesto? haha