sábado, 24 de janeiro de 2009

O amor incondicional

-Dan-

Uma vez, vi em um filme, ou li em um livro, ou ouvi na sala de espera do dentista, a ante-sala do inferno, uma conversa interessante sobre cafunés em pessoas que estão dormindo. A mulher se queixava da falta dos cafunés e o marido dizia que só fazia cafunés enquanto ela estava acordada, pois não havia sentido, segundo ele, em agradar um ser inanimado. A mulher se resignou com o argumento do marido e fez um muxoxo. Eu, que não sou dado a muxoxos ou resignações, arquivei a discussão em algum escaninho escuro desta mente que vos escreve. Como pode não haver sentido em agradar um ser inanimado? Não peço que esse marido conheça os hábitos das tribos da Nova Guiné, que adoram totens feitos de pedra ou madeira, mas se for ali ao Posto 9, o distinto verá uma tribo que adora e aplaude o Rei-Pôr-do-sol, enquanto uma outra, toda vestida de branco joga flores no mar e canta em homenagem a uma senhora que nem sequer existir de se pegar existe. Toda hora, em todo lugar, tem alguém amando, admirando ou agradando coisas que “não existem”, que são inanimadas. E eu te pergunto, querido marido, quem é mais inanimada? Iemanjá ou sua nobre mulher? Vou mais além, caro marido, e digo-lhe, com ares de professor emérito da Sorbonne, que a civilização, essa nossa, que nos proporciona o ar-condicionado, os antibióticos, a comida japonesa e os sitcoms americanos, essa nossa civilização justa humana e igualitária só é possível com um mínimo de veneração a seres inanimados ou que nem mesmo existem. Sem o respeito a Deus (para os religiosos) ou à Lei (para os legalistas) ou à moral (para os moralistas), as sociedades desandam para o que Durkheim, se me permite a citação, chama de anomia. “Por quê ser honesto, prestar esse “agrado” à honestidade, se muitas vezes ganha-se mais sendo corrupto?”- já perguntava Platão, no que respondo, séculos depois - não tem por quê. Ser fiel a um conceito, a um valor, a um ser inanimado é um ato irracional, que não estipula retornos, vantagens. É o altruísmo mais puro e elevado. E é por isso, marido, que você devia passar a fazer cafuné em seres inanimados, como sua esposa. E é por isso que eu entendo todo tipo de pessoa que cultua e venera ídolos. E que se recusa a apoiar o aborto, pois ama verdadeiramente um pedacinho de carne ínfimo, quase insignificante e inanimado.

3 comentários:

júlio disse...

O texto estava excelente até a parte em que cita o aborto. A pessoa que o ama o pedacinho pode amá-lo o quanto quiser e não fazer o aborto. Agora, o que a gente luta é para as pessoas que não ``amam o pedacinho``, ou amam, mas acham que não é hora possam fazê-lo. Século XX, Obama... Look forward!

júlio disse...

Ah, o século é XXI, né?

Joao Vicente disse...

o homem racional se destaca dos outros animais porque sabe separar o mundo real do imaginario, mas nao que ele dependa somente do imaginario para acreditar em algo. o homem sempre precisou de coisas q "existem", ou que sao palpaveis, para exercer seu credo. o terço, a biblia, a propria escrita, um sapato, sempre foram objetos de culto por algum credo. nao existe crenca sem algum objeto ou "coisa" que represente esse mundo imaginario no real. e a parte do aborto eh muita forcacao para encaixar nessa tese.