sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O dia em que vi o Rio pela primeira vez

Ah, este país vasto! Conheço pessoas de todos os tipos, regiões das mais distintas, saboreio todas as emoções e experiências humanas neste país idiossincrático. Percorrendo pelos diferentes lugares, falando com alguem que nao mora na minha cidade, me deparei com uma seguinte, monótona e preguiçosa afirmação, a de que "vocês, cariocas, nunca viram o Rio pela primeria vez".

Eu lembro muito bem a primeira vez em que vi o Rio. Foi numa tarde macia de domingo, voltara da casa da minha avó, após um almoço opulento, inebriado com a imagem da lagoa saindo do túnel Rebouças em direção ao Dois Irmãos. Foi a primeira vez também que lancei sobre mim um olhar solto de especificidades, bem proximo ao infinito de uma felicidade vazia, sem sentido, liberto das figurações culturais, do meu folclore nacional (e provinciano).

Vi e não vi, tive visões, porque as coisas como estão no mundo nos dão tédio. É preciso arrumar novos comportamentos para as coisas do mundo. E essa minha visao do Rio, da primeira vez em que o vi, foi transcendente, foi além de uma mera observação social, cotidiana. Eu vi a minha cidade pelos olhos das nuvens.

Dali em diante, me passou a acometer nos dias, este mesmo sentimento, de descobrir algo conhecido, encobrindo outros, desconhecendo o que era familiar, surtindo o prazer estetico da sublime natureza. A partir do dia em que vi o Rio pela primeira e única vez, me veio um sentimento fruto da certeza de que não voltarás no tempo. Mas eternizado com o legado do poeta, que descobre a primeira vez de uma palavra: saudade.


joao vicente

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Falastrões x Reservados

-Dan-

Era um psicoanalista, ou neurolinguista, ou mesmo um clínico geral, quem sabe, o que importa é que tinha o olhar mais bem-intencionado que já olhei, por trás dos óculos grenás, que lhe conferiam um certo ar informal e bonachão. Tinha, claro, bigode – grisalho- e uma simpática calva. Seria fácil imagina-lo meu bom escudeiro, ou vassalo, ou servo da gleba, em uma outra vida, na qual fosse eu seu cavaleiro, ou suserano ou senhor. Poderia ter sido também meu Alfred, fosse eu aquele Batman gordinho do seriado de TV. Mas era só um especialista em um programa de banalidades, que dava conselhos baseados em alguma homeopatia da alma, algum novo e surpreendente ramo da psicologia moderna. Ele dizia algo como: “Diante de um problema, fale!”. “Ponha para fora seus demônios”. Algo como “Se liberta, bem!”. Quem diria que por trás das boas intenções, dos óculos grenás, do bigode e até da mancha na testa que eu havia omitido, havia um terrorista. Sim, um terrorista, porque veja bem, incentivar as pessoas a exporem seus problemas e falarem deles para o taxista, para o padeiro, para os amigos e até para mim, se eu marcar bobeira, é uma forma de, atropelando as boas regras sociais que garantem uma convivência tranqüila entre as pessoas, disseminar o caos. É como estimular o espirro em um surto de gripe. Os profissionais da auto-ajuda têm o poder de criar uma legião de chatos e falastrões que pode vir a incitar em alguém um desejo adormecido de perseguir os chatos e falastrões, criando assim um racha na sociedade: de um lado, os quietos, tentando ler livros de filosofia sentados em pufes e do outro, os falastrões gritando, falando e chorando ao pé dos pufes, até o momento em que o quieto do pufe agride o falastrão e vice-versa e está instalada a guerra civil. Uma eventual vitória dos falastrões nesta guerra acabaria com os mistérios da vida, com a poesia, e até com o discreto charme da burguesia. Os casais discutiriam a relação na noite de núpcias, os porteiros dos prédios chorariam em nossos ombros à noite e o Dr. Lair Ribeiro seria eleito presidente.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

De como ir ao analista


ante-sala de psicanalista por si só ja é um ambiente propicio a conversa, pior se for silenciosa. quando muito, ouve-se dialogos insolitos como o que precedeu uma consulta, de que me arrependo ate hoje.

nesses lugares tem de tudo, mas principalmente jornalistas de grandes jornais e escritores de literatura fantastica, cujos esforços fazem com que o perecimento mental tenda a acelerar como banana no verao. estas figuras povoam as ante-salas, distribuindo a grosso modo seus comentarios irreverentes e petulantes.

a consulta foi de amargar mas a espera valeu o constrangimento. deu-se assim, um camarada chega pro outro, ambos na galhofa:

- dizem que a crise mundial ta precisnado de terapia

- é, acho que ela precisa se filiar ao greenpeace pra vê se acha um novo sentido na vida

- o sistema morreu né

- ah mas nos meros mortais nao! estamos vivinhos

- ainda bem que nao precisamos de nenhum sistema, ja basta nossas crises internas.

- voce esta falando das crises do senado e a do supremo?

- nao, falo interno no sentido de alma mesmo, nao que tenhamos que vender a alma pelo dinheiro, to falando de terapia

- terapia da alma?

- é, rapaz, acho que meditacao ta dando certo la no oriente

- sera que é isso que falta pra acabar com a crise?

- so pode ser...

- dizem por aí que essa crise é a maior balela, tem gente que ta ficando rico com essas balelas

- pelo menos ela serviu pra eleger o obama

- nao disse?!

(..)

- e a crise de 29?

- ih, essa aí foi a maior trapaca da historia do homem

- foi tudo mentira é?

- foi, e ainda atrasou a vida de todo mundo

- é mesmo...

- olha, que eu saiba, em toda a historia, só o estreito de bering pra atrasar tanto a humanidade como atrasou a crise de 29

- que gente esquizofrenica!

- fala baixo...

por Joao Vicente

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A fama de chuteiras


Alguem aí ja ouviu falar nos mártires palestinos que, muitas vezes, sao sacrificados ou se matam por um ideal? No caso aqui vamos falar do ideal da vitoria carioca no brasileirao. Nao dá né. Pessoal que fica jogado na praia todo dia, noites de arrematar, uma vida social digna de celebridade praiana, nao pode se dar tao bem assim nas obrigacoes do trabalho. Alias quem nao se da bem mesmo sao os treinadores do times cariocas, estes ai sao enforcados em praça publica, como bruxas da inquisicao mostrando a quem se atrever criticar a igreja ir para a fogueira.
Os tecnicos estao indo a fogueira para ninguem questionar o aspecto primordial das derrotas cariocas: o fato do jogador do rio ser mais do lazer e nao de trabalho. O sujeito treina 4 horas por dia, vai a praia, joga um futevolei, e no final do mes é uma bolada, uma bolada mesmo, como se tivesse ganho na loteria, só que todo mês. E em epoca em que o futebol cada vez mais se profissionaliza, se globaliza, o rio sai perdendo. o rio esta para o brasileirao, assim como o salario de um politico está para ele proprio.
Ha aí uma controversa situacao onde o trabalho nao esta relacionado mais a dinheiro. Só no Rio voce nao trabalha e ganha dinheiro. Eu, varias vezes ja me arrependi, e minha mae tambem, por nao ter virado jogador de futebol. Do flamengo é claro. Estudei nos melhores colegios, nenhuma escola publica, eu tenho que ir para a rede globo dos clubes de futebol.
Seria uma gloria no meu curriculo, daqui iria pra europa ou entao pra sao paulo, aí eu ia me dar bem, mas ia ter que trabalhar. Eu prefiro a europa mesmo que se ganha em euro e em 5 anos mais ou menos, eu junto 1 milhao e paro de trabalhar. Isso se eu nao tivesse nascido no nordeste, porque aí eu iria saber mesmo o mundo real de um jogador de futebol. trabalho, trabalho, pouco recurso, trabalho...
Ate cansa nós aqui do Rio repetir assim. Mas só repetindo para que prestemos atenção no problema que é nosso, e que o profissional de verdade, competente, coerente, nao acabe sofrendo por isso. Falo do cuca, coitado, que o admiro como profissional. Mas acaba passando maus bocados por causa de um bando de adolescente brincalhao que nao sabe o que faz com tanto dinheiro e tanta fama, assim como nao soube michael jackson, e nao sabe nenhum politico.

por Joao Vicente

sábado, 20 de junho de 2009

Motivacoes de ordem passageira


O cidadão morava no coracao da Nossa Senhora de Copacabana, rua tomada por camelos de um lado a outro, de todas as especies e iguarias. havia dias em que nao conseguia entrar em casa e ficava a perambular pela rua, fazendo hora, esperando o termino do furdunzo. olhava as vitrines das lojas, entrava numa livraria, lia um ou dois livros, quando dava por conta de que estavam fechando a livraria, corria para casa pois o horario comercial dos camelos co-incide.

e inside mesmo - nao arredam o pe da onde fincam o negocio pois podem perder o ponto. os mais peritos procuram se localizar perto de alguma lanchonete - ou da praca de alimentacao - deste shopping a ceu aberto. antes, para eles, fosse fechado, protegido da guarda municipal, que é porque se escondem embaixo de arvore, atras de banca, aonde der, senao saem correndo mesmo, a esmo, pela rua a fora, como zebras ameacadas. Um sinal de alerta é o estopim da debandada:

- olha o rápa! Alguem gritou.

- corre, maluco! corre, maluco!

E saiu todo mundo em disparada para nao sei aonde. Tomaram um cha de sumico - nao se vira mais nada. A calcada ficou erma. Chegando um policial da guarda, se aproximou e perguntou:

- Viu pra onde eles foram?

- quem?

- os camelos.

- vi nada. e nem quero ve-los novamente

Mas no dia seguinte, quando acordava e descia para comprar pao, um tropeco no primeiro pano estendido indicava que estavam la de novo, impassiveis, prostrados, nao adiantava, voltava tudo ao normal sempre. Resolveu entao tomar uma atitude com relacao ao entrave.

Chegando em casa, viu toda aquela gente feliz trocando moedas, produtos, especiarias. Um fuzue danado que tomou com cautela um estalo, e uma ideia brilhante pairou em sua mente. Foi adentrando no meio do gargarejo, se misturando aos demais. Se colocou numa posicao privilegiada e emendou:

- Aí, gente, olha o RÁ-PA!

Sairam todos numa disparada tao grande, mas tao grande que entrou em casa numa felicidade tamanha, sem nenhuma aporrinhacao. Conseguiu ate dormir mais cedo, sabendo que no dia seguinte teria que sair de casa antes do comercio chegar.

por Joao Vicente

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um texto que abalará os alicerces do universo

obs: ler antes, em http://www.invernodejulho.blogspot.com/, o Real Valor das Palavras, do indômito aiatolá J.J.

-Dan-


As palavras têm força. Eu poderia enciclopedicamente enumerar casos e mais casos históricos em que elas tiveram papel importante em grandes mudanças, mas deixo isso pra você resolver aí com o google. O que o google não consegue é medir o exagero e a precipitação dos defensores do discurso e da diplomacia como principais armas de transformação social. Para início de conversa, qualquer ditadura, conhecendo o poder da palavra, passa a controla-la. É assim na Coréia, em Cuba ou no Irã. Ah, claro, o Irã não é uma ditadura, apesar de o Líder Supremo....ou Comandante Geral....ou Grande Buda Master....seja lá qual for o título, estar lá há....20 anos! Ele mesmo, o aiatolá Khamenei, um homem santo, um homem probo. Qualquer palavra dirigida a essas ditaduras é devidamente filtrada. O debate de idéias é útil na relação democracia-democracia., e praticamente inútil na relação democracia-ditadura. A palavra democrática está sempre em desvantagem. Olhando retroativamente, os discursos verdadeiramente históricos caracterizam-se pelo arrojo, pela ousadia. – por questionar aquilo que não se pode questionar. Da “Apologia” de Sócrates, ao “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King, passando pelo discurso de Marcio Moreira Alves em 68, há sempre uma perspectiva de enfrentamento, de coragem.. Mas Obama inaugurou a era dos discursos históricos domesticados, bem-comportados, já que não é necessária muita ousadia para declarar “ Shallamallek. Estou aqui em busca(...).de tolerância e de dignidade para todos os seres humanos”. É mais ou menos o que um extraterrestre diria, antes de fulminar a terra com bombas de Nêutrons e pedir: “Leve-me ao seu líder”. O discurso de Obama no Cairo, uma coleção de obviedades repetidas mundo afora, inclusive por seu antecessor (ele mesmo, o Demo!) é considerado histórico pela imprensa pelo mesmo motivo que Bo, o cachorro de Obama, é histórico.É difícil, eu sei, aceitar que vivemos nos Tempos Desinteressantes,.como Hobsbawm, daqui a 5 anos, com 230 , tomando um café com Niemeyer (300), nomeará nossa época, em que nada de realmente novo ou relevante acontece. Aí, surge esse desespero pela grandeza, pela historiedade. Fatos medíocres – a fantástica redução de 0, 25% dos juros, a ameaçadora gripe dos porcos, as emocionantes rodadas comerciais da OMC, o discurso históóórico de Obama – ganham uma aura espetacular, que mal disfarça o marasmo incontornável dos nossos dias.

domingo, 7 de junho de 2009

O noivo desorganizado


Argemiro acaba de ser promovido no trabalho. Gerente financeiro da Fundacao leao treze, no centro da cidade. Obra galgada com esforço e dedicação. Muito de sua experiência como funcionario publico foi adquirida nos tempos de concursado da receita federal. O salário não era lá essas coisas mas o suficiente para manter o noivado estável, pois o fortuito entrave de um apartamento no leblon já o vinha deixando preocupado.
Foi herança do pai que também tinha uma bufunfa para receber das hipotecas atrasadas, das quais ja se davam por esquecidas. Um advogado da familia que, nas entranhas da Caixa Economica, descobriu sem querer o tesouro. No entanto o entrave: a bolada só sairia dos cofres públicos para o primeiro conjugue casado mais proximo do ente falecido. Qual não foi sua surpresa ao perceber que, filho unico de filho unico, a mae tinha morrido aos 16 anos logo depois de nascer, sem primos e alguns desquitados e que, portanto, o unico familiar com potencial para o cargo seria quem? Argemiro.
A nova vida de herdeiro e marido promissor prometia mudar, a começar pelas menininhas do escritório. Ele ja tinha enfileirado uma sequencia de baias das secretárias executivas e, pelo jeito, os happy-hours não iriam parar por aí. Porem, homem comprometido e com as deveras necessidades de engendrar um casamento, fazia-se serio sem perder os predicados moralistas, afinal ele nao queria mais passar a vida inteira na zona oeste tentando encontrar a mulher certa, queria era se mudar para o leblon com a errada mesmo.
Um belo dia, foi abordado pelo chefe. Achacou-o de maneira obscena, com toda a pompa que um bom funcionário do estado merece. Foi oferecido um fim de semana em São Paulo, para tratar com os os futuros patrocinadores da fundacao, na cidade. Gege - como é conhecido em casa - agradeceu a oportunidade e ficou encarregado de avisar a um amigo de extrema confianca, o Carvalho, do marketing. Com dois filhos pequenos e mulher gravida, Carvalho deveria repensar a proposta, ja que o cenario se configuraria em abandono-com-intenção-de-prejudicar-esposa-amamentando. nao quis nem saber e foi logo tomando as rédias da negociacao junto ao patrao, quer dizer, junto a patroa.
Entre as hipotecas atrasadas, Gege contabilizava algo em torno de 500 mil além do valor do apartamento. Com uma vida - e uma vista - dessa, sua futura mulher nunca teria que se preocupar com o tamanho da cozinha, ou com o que tampar o ar-condicionado para nao fazer barulho, escolher entre qual banheiro sacrificar para aumentar a sala ou fazer uma janela na parede da cozinha. Esse tipo de preocupacão deveria ficar para o homem da casa, que, as escondidas, organiza uma despedida de solteiro antecipada com os amigos. Mas o contato, entre a esposa de um e a noiva do outro, crescia com frequencia, salientando todos os entretantos dos respectivos, alem, claro, dos desvios de conduta. As duas pareciam estar em sintonia fina com os passos deles. Nem no Afeganistao conseguiriam se esconder.
Dia seguinte argemiro chega na empresa logo cedo, para encontrar Carvallho, enquanto que o dito cujo vem segurando a filipeta de um casa de streaptease em Sao Paulo. Pronto para vestir o abadá da folia, Argemiro reforca que aquilo nao ia dar certo, que o casamento e o enriquecimento repentino correriam risco e que era melhor repensar os planos pois estavam muito na cara as más intencoes dos bonitoes.
O aviao aterrisa no aeroporto de cumbica na sexta-feira, data que, para um funcionario publico, é quase feriado, e feriado, para um funcionario publico, é carnaval, quase sempre. Nas ultimas das desculpas, o caso era esse: Carvalho estava em São Paulo para uma feira de antiguidades da Tia Amalia, prestigiar o empreendimento da familia. Argemiro foi sozinho para a dita reuniao - disse à mulher -, ela ate que queria ir junto mas, ao inves de ficar sozinha, ja tinha uma boa companhia aqui no Rio. Ele nunca imaginava que isso fosse possivel. Afinal a mulher do Carvalho ja tinha dois filhos e estava gravida, o que teria para conversar com a do Argemiro? - Coitado! Passeando pelo shopping Morumbi na tarde de sabado, o telefone de Carvalho toca, era sua mulher. Papo vai e papo vem, perguntado aonde estava, acabou comentando, muito por alto, que havia encontrado um amigo, que nao via ha muito tempo, no shopping: Argemiro.
- Mas que coincidencia, nao é, amor?
- Pois é
- E o que ele esta fazendo ai?
- Ah... ele veio... para um congresso de energia nuclear
- E desde quando o shopping morumbi se interessa por energia nuclear?
- É confidencial, amor. Argemiro esta trabalhando diretamente para o governo agora
- Ah eh?
Os dias e as horas dos dois em Sao Paulo corriam na mao da mulher do Carvalho no Rio, contudo, as informaçoes nao batiam com os fatos. No domingo, fazendo compras no supermercado, as duas se esbarram numa de que o universo conspira ao favor de quem fala a verdade. A mulher do Carvalho comentou, muito por alto, para a noiva de Gege, que o marido estava fora, em Sao Paulo.
- soube que Argemiro está em Sao Paulo. Trabalhando para o governo ele?
- nao querida, Gege, pelo que eu sei, foi para uma reuniao da empresa.
- nao me diga?
- pois é
Nunca haviam se encontrado para um almoco na reparticao, foram logo se esbarrar em pleno sabado a tarde no shopping morumbi. seria isso a sorte? A engenuidade o levou a acreditar que elas tinham engolido que, por sorte, ele havia trombado com o amigo do escritorio no maior shopping da maior cidade do pais. Uma mentira de proporcoes nacionais.
Segunda feira, passado o trio-eletrico, Gege voltava para casa como quem acabara de ganhar um concurso de rei momo. abriu a porta da sala com a barriga e deu de cara com a noiva, a mulher do Carvalho e, ali no canto, timido, torcendo para nao ser visto, o Carvalho, do marketing. Argemiro nao acreditou que, apesar de nao ter se oferecido para ninguem durante a viagem, foi entregue de bandeja para sua mulher que ainda nem era dele, mas que precisava ser logo.
Tudo fora descoberto, ate a filipeta. A pena para Carvalho, depois do divorcio, foi uma pensao bem pesada pros filhos. Já para Gege, que naquele momento nao sabia se lamentava ou agradecia o fato de nao te-los, foi o fim do noivado. Foi o fim de um grande sonho, de se mudar para a Delfim Moreira no Leblon e gastar o resto em viagens para Sao Paulo.