sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ai de ti!

Sou adepto de um esporte radical: corridas na praia de Copacabana. Sair de casa, andar, correr, praticamente tudo envolve um certo risco no Rio de Janeiro. Em Copacabana, porém, tudo é diferente, estranho, extraordinário. Por exemplo: na rua Min. Viveiros de Castro, um sinal de trânsito pisca na luz amarela desde a Revolução de 30. Ele voltará ao normal? Mas que normal? O que é normal em Copacabana? Um outro exemplo: mesmo com a proliferação das grandes redes de supermercados e mercearias, com suas facilidades e comodidades, resistem bravamente à lei da concorrência os simpáticos quiosques das Granjas Xôko. O que mantém esta exótica maçonaria avícola de pé, em tempos de modernização, de ovos transgênicos e chesteres monstruosos? Sabe-se lá. Copacabana tem razões que a própria razão desconhece. Voltando às corridas, aqui, neste centenário bairro, elas possuíam, como tudo, um atributo peculiar, tratando-se de Rio de Janeiro: a tranqüilidade e a segurança.
De uns tempos pra cá, porém, esta atividade passou a incorporar um risco não muito inusitado: de que o corredor seja alvejado por uma rajada de tiros de metralhadora. Recentemente, durante minha corrida, melhor, meu Cooper, para fazer jus à minha suposta burguesice (nada é mais tipicamente burguês do que o Cooper), fui surpreendido por essas rajadas e explosões de granadas, ali pelas bandas do Leme. Tratava-se de uma guerra entre duas facções, que durou a semana toda, algo impensável até algum tempo atrás. Uma das singularidades copacabanenses era a relativa tranqüilidade das favelas do bairro, ou, pelo menos, a inexistência de guerras escancaradas, da troca de tiros à luz do dia, do pânico consumado. Ao que parece isso está mudando. O bairro vai se banalizando, tornando-se apenas mais um entre os tantos bairros com tiroteios, igrejas universais, praia suja e (quem sabe num futuro próximo) shoppings. A cada novo tiro, a cada nova loja Marisa, a cada boteco que fecha, Copacabana vai perdendo seu charme secular. Nada teria eu contra, caso o tal charme fosse trocado por ruas limpas, segurança e menos barulho. Acontece que o charme vai sendo trocado pelas Drogarias Pacheco e pelo mar imundo. Ei, eu quero meu charme de volta. Viva a resistência do último sinal piscante. Viva os bravos paladinos das Granjas Xôko!


-Dan-

3 comentários:

Rubem Braga disse...

Acho que esqueceu-se do shopping dos antiquários, subindo a Siqueira Campos. Deslize altamente perdoável ante uma crônica de inenarrável beleza e extrema criatividade. Excelente, Daniel, lindo!! Ai de ti mudar-se deste bairro, que até hoje causa-me suspiros contemplativos quando observo o charme malandro de suas paisagens.
Ah, quase que me esqueço: o Bili, ou o Lucas, também adorou sua crônica.

Abraços do além.

dan disse...

o daniel, ruborizado, agradece!
abraços do aquém!

Anônimo disse...

pega o rubem braga daniel, te deu mole hein deu deu mole!