-Dan-
Hoje acordei pensando em Sérgio Cabral. Não exatamente na pessoa do governador, aquela figura rotunda e pimpona, mas em seu governo, seu misterioso governo. Foi um fato inédito em minha vida, já que nunca acordei pensando, quanto mais, pensando em governos. Meu despertar invariavelmente resume-se a bocejos e palavrões balbuciados. O primeiro pensamento do dia, que surge em média 5 minutos depois deste ritual, é sempre amargo e frívolo, como "espelho desgraçado!", ou " não aguento mais-não-sei-o-quê". Esse "não-sei-o-quê" pode ser até você aí, mas nada pessoal, às 6 horas da manhã até Jesus(Obama) me serve de bode expiatório. Estranho acordar pensando, e pensando em Cabral. Fosse em Cléo Pires, resquício de sonho, eu compreenderia. Mas Cabral ocupa minha mente tanto quanto a Ponte Preta, não por falta de interesse, mas por falta de notícia. Em quase dois anos no poder, o governador rendeu poucas notícias, para o bem e para o mal. Uma obra do PAC emperrada pelo tráfico, os hospitais na mesma de sempre, um tédio, que se fosse o tédio sueco seria muito bem-vindo ( - que tédio..ganhamos mais um nobel), mas é o tédio fluminense ( - que tédio...mais 15 adolescentes estupradas e mortas hoje..). Talvez eu tenha pensado em Cabral pela manhã bem cedo, porque minha cabeça opera mais ou menos como uma emissora de TV, que às 6 da manhã transmite um desenho animado de algum pônei afetado, sei lá eu. 6 da manhã não é horário para programas nem pensamentos nobres.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Rio, cidade do fim do ano

Seja ou não verão, a praia no Rio esquenta a cada ano. Os mais perversos sinais de arrebentação anunciam a chegada de dengue, enchente, avarias gerais de festejos urbanos.
E olha que pra lá pro norte o pessoal já se modernizou, elegeu um homem mais enxuto(ideologicamente), bem acabado, deixou o sobrevivente de guerra descansar em paz, coitado. Aqui, continuamos com aquele almofadinha típico das festas no Copacabana Palace, inaugurações na Barra, entre outros eventos. Como pode o carioca - foi picado pela burrice no verão passado -, deixou o poder para o mesmo típico político das chanchadas modernas. Um tipo meio praiano, meio executivo. Agrada a todos os gôstos... que tal?
Bom, depois da derrota do Gabeira, chega a vez de torcer pela filha, durante a temporada de ondas grandes que bate no inverno havaiano. Impossível acreditar que existe inverno no Havai, não é? Mas é verdade. Quem sabe a mangueira, finalmente, não ganha no carnaval? Quem sabe o reveillon seja mais família? Vamo vê se no natal a coisa será mais 'light', menos cilmão. Se encontrarmos um jeito de subverter as coisas, viveremos livres? A subversão é apenas uma face da moeda?
Eu devo confessar a vocês, leitores, que ainda ando com aquela utopia socialista-hippie de antigamente. Já, várias vezes, me peguei pensando nas criancinhas desabrigadas desse fim de ano, no derradeiro fim do ciclo anual da vida brasileira, onde a balança sempre pesa pro menos favorecido. Isto para mim, que dou o braço a torcer a esses calendários comerciais.
Eu não sei por que o fim de ano e início de verão no Rio é essa loucura, tudo vira um frenesi, como se todos entrássemos na mesma loja para comprar o último presente de natal restante e só saíssemos depois de fevereiro. A vida fica corrida: é décimo terceiro pra cá, férias pra lá. O ano no Rio só começa no início do verão, ou no fim do ano, quando todo o mundo já assentou a poeira ao lado de uma lareira e sentou para esperar encher as meias de natal.
Um dia eu vou me lembrar: "nesse fim de ano, não esqueça de dar para o seu pai um celular tal!", o máximo, com ele você pode falar vendo a outra pessoa e ainda saber onde realmente ela está. Pelo menos, até onde o sinal pegar.
Joao Vicente
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
A respeito de cadáveres
A passividade política é uma das grandes conquistas da civilização. Depois de séculos, o homem chega ao auge do conforto e da praticidade na política, com a conquista do voto universal, que o isenta de ter que ir a audiências, comitês e foros, deixando essas tarefas a cargo de uma classe cinzenta e deselegante, a dos políticos. Liberado das obrigações públicas, o camarada passa então a despender seu tempo em coisas realmente importantes: produzir, ganhar dinheiro, observar o ciclo de reprodução de canários, Sex and the City, Seinfield, descobrir a cura da diabetes, e por aí vai. Uma sociedade próspera é, sem dúvida, uma sociedade politicamente passiva. Mas, obviamente, não se pode esperar pela docilidade de uma população que vive, por exemplo, sob um regime tirânico e corrupto, como a França pré-revolucionária. Trocando em miúdos, a tal da passividade política só é possível e desejável numa democracia representativa, este modelito que demoramos tanto para construir, e que volta e meia é posto em xeque por meia-dúzia de sabichões que juram ter descoberto um sistema melhor. É como se, criado o controle remoto, que nos faz passivos, obesos e felizes, um chato surgisse prometendo inovar com uma rebimboca que nunca funciona. Mas os chatos que desejo abordar agora são os que, em vez de trazer uma rebimboca, sugerem que tudo volte a ser como em 1950, em preto-e-branco e sem controle remoto. São os “ativistas”, que se esquecem que numa democracia moderna, existem instituições, cujos agentes recebem muitas vezes um rechonchudo vencimento, para que façam aquilo que não podemos fazer por falta de tempo e paciência. Esse pessoal do ativismo prefere ir às ruas por conta própria, do que fortalecer as instituições da democracia, indo de encontro à mesma; acham que resolver as coisas no grito é “democracia”. Primos dos ativistas são os “voluntários”. Os do Obama, por exemplo, são saudados como apóstolos, como novos cruzados pela imprensa mundial. Os do Gabeira, como heróis, mártires, argonautas da zona sul. Fala-se muito do renascimento da política, que poderia muito bem continuar deitadinha em sua cova fria, cinzenta e deselegante.
-Dan-
-Dan-
terça-feira, 21 de outubro de 2008
(Título à espera da autora)
A exclusividade se dá a quem escolhe ser exclusivo. Se você não recebe exclusividade, a quem você vai oferecê-la? - não acabou a territorialidade. Os homens que escolheram fazer xixi em qualquer poste. - O homem escolhe. Mas pra mulher não adianta ele escolher ela e tantas mais. É ela. Não ela + 5. - Cabe ao homem a atitude que a ele sempre vai pertencer. À mulher cabe ser escolhida. E escolher quem a escolheu. Se não acontece isso, acasos do destino, como tantos outros. Mas a verdade seja dita, às mulheres cabe o papel de sofrer. Elas podem sim dar o veredito final, mas quem dá o inicial... ah...isso são vocês homens. De que adiantaria a mulher se colocar no lugar dos homens e tomar armas para conquistá-los? Se a vocês cabem escolher-nos p que assim então, decidirmos, ou não, se sim ou se não.
Olívia
Olívia
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
"...Na preza"

Horário comercial agora fecho cedo, tá dificil a vida aqui na Consolação. Aos canas eu agradeço o puxado, deu que adiantou no final das contas. Mas é que pra ficar a mercê desses aê, meu, prefiro fechar cedo. Tempo outro eu abria até fim de semana. Tinha um quartinho no mesmo prédio-galeria da Posse, a moça da recepção, Valeska, era delícia, ela gostava de uns afagos de vez em quando. Sabe como é, né companheiro? Eu é que não podia tirar os olhos da portaria, que já que ninguém morava lá - só sobrava eu - e o segurança noturno havia sido cortado, falei que até ficava mas desde que pingasse algum. Foi nisso que quando um bando tinha invadido sobrou pro mano da porta, amarram ele junto a catraca.
Mas onde que eu estava? Há, sim. Naqueles tempos era onça. Papo fiado na esquina rendia rolo pruma semana. Eu aqui na loja, apesar de ensejo de alguns advogados, tenho caminhado, sabe, causa de um adendo do seu Augusto - ele que é o proprietário. Fez uns acertos e conseguiu uns "incentivos" fiscais, oh, da hora. Veio a calhar. Mas, de todo caso, ainda fazia uns biquinhos aqui ou ali.
Chegava no ponto da van - eu tinha uns porta-retratos, uns cadernos, pegava do fim do estoque - tirava um trocado. Valeska me pressionava pro motel: - Agradeça ao doutor Augusto, sempre a diposição de me consignar.
Ainda to na idéia de que se não parar mais cedo, vou sair prejudicado. Só nesse mês já roubaram aqui um catatal de pertences do seu Augusto. As coisas do melhor refino, outras que vendo, e ainda pra ficar esperando se vão me reaver isso frente a polícia eu sou mais fechar mais cedo - deixo os bicos pro horário livre - e não me arrumo mais com bandido pra ficar de trelelê na proprina não.
Joao Vicente
domingo, 12 de outubro de 2008
A tal da revolução feminina
Júlio
Mulheres, parem, já chega. Tudo bem, vocês sofreram durante anos, séculos, com o machismo extremo, com o papel único de progenitoras e administradoras do lar, mas agora vocês estão passando dos limites. Está injusto. Desleal. A bola é toda de vocês. Até ela, antiga exclusividade masculina. Agora, o que restou a nós? O mero papel de vendedores dos nossos produtos. E a vocês, a simples escolha de consumi-los ou não. Tudo é tão fácil para vocês. Ou acham que é mole ficar bolando um papo interessante, esperar o momento certo de se aproximar, para, no fim, vocês darem o veredicto: "É, talvez. Esse produto que você está me oferecendo eu já tive e não funcionou muito bem. Mas, de repente um dia eu experimento." Isso quando muito, quando não, vocês têm a difícilima tarefa de mexer o rosto na horizontal para um lado e pro outro. Querem saber? Meu produto é caro também!
Atrasados e ingênuos são os que acham que saem com uma, e aquela uma é exclusiva sua. E sai com outra, pensando que esta não quer mais um outro alguém. Acabou a territorialidade. Vocês mataram o cachorro que fazia xixi no poste.
O "eu também quero gozar" nunca foi tão explícito. Ou melhor, vocês também ganharam o direito do "eu só quero gozar", privilégio, que nós, cachorros, tínhamos, como prova de virilidade. Por sinal, virilidade, tem tempo que não ouço essa palavra. Vocês, sorrateiramente, também devem ter dado um fim a ela.
Qual o nome que vocês dão a isso? "Revolução feminina"; "A vingança veste vermelho" "A revolta do batom"? Seja qual for, vocês fizeram bem feito. Provavelmente, enquanto a gente asssistia a Bragantino x XV de Jaú.
Vocês devem estar por aí, rindo pelos cantos, de nós, trocadores de lâmpada. "Hahahaha, acabamos com eles". Não tem mais graça. Tudo bem, mas da próxima vez, vocês pagam o motel.
Mulheres, parem, já chega. Tudo bem, vocês sofreram durante anos, séculos, com o machismo extremo, com o papel único de progenitoras e administradoras do lar, mas agora vocês estão passando dos limites. Está injusto. Desleal. A bola é toda de vocês. Até ela, antiga exclusividade masculina. Agora, o que restou a nós? O mero papel de vendedores dos nossos produtos. E a vocês, a simples escolha de consumi-los ou não. Tudo é tão fácil para vocês. Ou acham que é mole ficar bolando um papo interessante, esperar o momento certo de se aproximar, para, no fim, vocês darem o veredicto: "É, talvez. Esse produto que você está me oferecendo eu já tive e não funcionou muito bem. Mas, de repente um dia eu experimento." Isso quando muito, quando não, vocês têm a difícilima tarefa de mexer o rosto na horizontal para um lado e pro outro. Querem saber? Meu produto é caro também!
Atrasados e ingênuos são os que acham que saem com uma, e aquela uma é exclusiva sua. E sai com outra, pensando que esta não quer mais um outro alguém. Acabou a territorialidade. Vocês mataram o cachorro que fazia xixi no poste.
O "eu também quero gozar" nunca foi tão explícito. Ou melhor, vocês também ganharam o direito do "eu só quero gozar", privilégio, que nós, cachorros, tínhamos, como prova de virilidade. Por sinal, virilidade, tem tempo que não ouço essa palavra. Vocês, sorrateiramente, também devem ter dado um fim a ela.
Qual o nome que vocês dão a isso? "Revolução feminina"; "A vingança veste vermelho" "A revolta do batom"? Seja qual for, vocês fizeram bem feito. Provavelmente, enquanto a gente asssistia a Bragantino x XV de Jaú.
Vocês devem estar por aí, rindo pelos cantos, de nós, trocadores de lâmpada. "Hahahaha, acabamos com eles". Não tem mais graça. Tudo bem, mas da próxima vez, vocês pagam o motel.
Mistificações 1 (ou uma análise do sucesso de Duda Mendonça)
-Dan-
A história do homem é, também, a história das mistificações. Sempre quis começar um texto com uma frase de tamanho efeito, que me alça ao posto de especialista em história humana. Agora, os exemplos, para aumentar minha credibilidade: ora, pois, o que faziam os gregos, com seus mitos, suas odisséias de gigantes-de-um-olho-só? E o que fazem hoje os brasileiros, com seus mitos, seu anão-de-quatro-dedos-só? O iluminismo (falar qualquer besteira sobre o iluminismo “causa”!) nutriu a esperança bocó de que os mitos seriam varridos, dinamitados. Mas a ciência e a tecnologia se tornaram meios de propagar os mitos em tempo real. “O mito é o nada que é tudo” já dizia Fernando Pessoa. Já temos carros movidos à luz solar, mas ainda se discute se fulano é rebelde por ser de escorpião, criativo por ser de touro, etc etc...Em qualquer latitude, o grosso da população tem certa aversão aos fatos, à realidade. Isso exige apuração, rigor intelectual, ou que se mexa minimamente o traseiro. Muito mais fácil é olhar, boquiaberto, um demagogo cuspir verdades prontas e, bovinamente sussurrar baixinho: “Amém”. Não fosse assim, jornalismo daria dinheiro e o Duda Mendonça estaria na sarjeta, tomando Dreher nas biroscas do Catete . A vitória do marketing sobre o jornalismo é a vitória do mito, da retórica, da “religião” sobre o empirismo.
A história do homem é, também, a história das mistificações. Sempre quis começar um texto com uma frase de tamanho efeito, que me alça ao posto de especialista em história humana. Agora, os exemplos, para aumentar minha credibilidade: ora, pois, o que faziam os gregos, com seus mitos, suas odisséias de gigantes-de-um-olho-só? E o que fazem hoje os brasileiros, com seus mitos, seu anão-de-quatro-dedos-só? O iluminismo (falar qualquer besteira sobre o iluminismo “causa”!) nutriu a esperança bocó de que os mitos seriam varridos, dinamitados. Mas a ciência e a tecnologia se tornaram meios de propagar os mitos em tempo real. “O mito é o nada que é tudo” já dizia Fernando Pessoa. Já temos carros movidos à luz solar, mas ainda se discute se fulano é rebelde por ser de escorpião, criativo por ser de touro, etc etc...Em qualquer latitude, o grosso da população tem certa aversão aos fatos, à realidade. Isso exige apuração, rigor intelectual, ou que se mexa minimamente o traseiro. Muito mais fácil é olhar, boquiaberto, um demagogo cuspir verdades prontas e, bovinamente sussurrar baixinho: “Amém”. Não fosse assim, jornalismo daria dinheiro e o Duda Mendonça estaria na sarjeta, tomando Dreher nas biroscas do Catete . A vitória do marketing sobre o jornalismo é a vitória do mito, da retórica, da “religião” sobre o empirismo.
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