Quando escrevo driblo todos meus anseios. Idealizo personagem como eu gostaria de ser. Adiciono a ele tudo aquilo que me falta. Crio um herói. Faço isso geralmente à noite – quando os sonhos e demônios batem à porta da mente. Para transportá-los da fantasia para a vida no papel, trepo no muro das idéias e observo meus dedos baterem freneticamente no teclado que, por sua vez, chora sons ocos em ritmo sincopado. O resultado nem sempre é o esperado, claro. Mesmo que pretendesse, ainda não escrevi algo sensacional, admito. Algo que fizesse suspirar o coração mais gelado, que provocasse a reflexão do mais rigoroso intelectual, que enchesse meus bolsos de verdinhas.
Queria ser jornalista escritor, aquele respeitado em qualquer redação. Tipo um Veríssimo só que menos gordinho. Enquanto o caça-talentos não bate à minha porta prometendo publicações de êxito, contento-me com a vida de estagiário e calouro de blog. A frase anterior pode soar pretensiosa, mas como o sonho é gratuito pratico sessões de devaneio nas horas que o dia permite. Gostaria mesmo de escrever algo sensacional que as pessoas comentassem com seus amigos: “Ontem li uma história excelente”, e começassem a contar embalados por risos e suspiros emocionados. Gostaria de ser um puta escritor, um fera, um batuta, um pica grossa, um bamba dono de texto fluido como córrego e caudaloso feito o Rio Amazônas. Autor de um livro de 500 páginas incapaz de causar cansaço ao leitor. Queira escrever algo sensacional. Ah, mas quer saber: também não estou com essa pressa toda. Quem sabe um dia eu consigo. Por enquanto tá difícil.
Lucas
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Um pequeno diálogo
- Danieeel...você prometeu não amolar mais seus amigos, familiares e leitores ocasionais com essas patavinas políticas sobre crises, CpI´s, escândalos, enfim, essas pequenezas típicas do nosso país...o João, o Bili, o Júlio e os milhões de leitores do blog precisam de crônicas frugais e divertidas sobre a beleza do RJ, etc etc etc...as cartas não param de chegar à redação, todas suplicantes, pedindo um bocadinho mais de leveza e descontração, pois de desgraças já estamos bem fartos. Não me diga que você quer meter o bedel de novo nas mazelas do governo, escarafunchar essa sujeira...deixa isso pro Globo, pra Folha, pro Estadão...eles que são brancos que se entendam, ou desentendam.
- Me entenda...estava eu aqui prestes a escrever uma linda crônica, daquelas para serem lidas ao pôr-do-sol em Ipanema, entre palmas e baseados, quando um novo escândalo brotou nas páginas dos jornais. Não é culpa minha. Vivesse eu, sei lá, na Escandinávia, poderia passar dias a divagar sobre o movimento dos barcos, sobre o sol-que-não-se-põe, sobre a aurora boreal...mas como posso deitar “tranqílo” na rede das delícias da poesia, se eles insistem em bater à minha porta? Eles, os políticos, os lobistas, os empresários, que todo dia tocam nossa campainha, só para avisar : “- Ei, otário, obrigado por tudo. Miami me aguarda. Fui!” . Tem gente, os cuca-fresca, que prefere não atender a campainha, não ouvir a provocação dessa gentalha. Mas qual a distância exata entre a cuca fresca e o miolo-mole? Eu atendo. Eu vejo esse bando rir da nossa cara e não consigo agüentar calado.
- Pois então...vai lá...qual é a sacanagem da vez?
- A compra da Brasil Telecom pela Telemar/Oi! É o maior escândalo da história recente de nosso país!! Pior, muito pior do que mensalão e sanguessugas juntos! Uma concessionária não pode incorporar outra! Está na lei! E a lei vai ser alterada em benefício de uma empresa, o que não acontece nem nas Repúblicas bananeiras africanas, nem no Haiti, nem..nem...ei...volta aqui, me escuta! Ô...você aí...espera...eu ainda não terminei....
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-Dan-
- Me entenda...estava eu aqui prestes a escrever uma linda crônica, daquelas para serem lidas ao pôr-do-sol em Ipanema, entre palmas e baseados, quando um novo escândalo brotou nas páginas dos jornais. Não é culpa minha. Vivesse eu, sei lá, na Escandinávia, poderia passar dias a divagar sobre o movimento dos barcos, sobre o sol-que-não-se-põe, sobre a aurora boreal...mas como posso deitar “tranqílo” na rede das delícias da poesia, se eles insistem em bater à minha porta? Eles, os políticos, os lobistas, os empresários, que todo dia tocam nossa campainha, só para avisar : “- Ei, otário, obrigado por tudo. Miami me aguarda. Fui!” . Tem gente, os cuca-fresca, que prefere não atender a campainha, não ouvir a provocação dessa gentalha. Mas qual a distância exata entre a cuca fresca e o miolo-mole? Eu atendo. Eu vejo esse bando rir da nossa cara e não consigo agüentar calado.
- Pois então...vai lá...qual é a sacanagem da vez?
- A compra da Brasil Telecom pela Telemar/Oi! É o maior escândalo da história recente de nosso país!! Pior, muito pior do que mensalão e sanguessugas juntos! Uma concessionária não pode incorporar outra! Está na lei! E a lei vai ser alterada em benefício de uma empresa, o que não acontece nem nas Repúblicas bananeiras africanas, nem no Haiti, nem..nem...ei...volta aqui, me escuta! Ô...você aí...espera...eu ainda não terminei....
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-Dan-
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
A Ciência da Amizade
A amizade é a busca incessante de você em outra pessoa. Ela é muitas vezes frustrante, mas também excitante e recompensadora. Esta busca, assim como a busca pela felicidade, é o que nos move pra frente, ponderando as dificuldades e unindo ideais.
Ao mesmo tempo em que procura algo no outro, você está também sendo incomodado, subvertido, contaminado por este outro. Nesta corrida de mão-dupla, por uma simples convivência, há diversas batidas. Não tem linha que separe, não tem sinal que interrompa. Amizade é profusão de personalidades. é terapia em grupo. Uma faca no pescoço da hipocrisia. Sem ela não seríamos o que sabemos que somos. Nós só existimos no outro, e a busca da amizade é também a busca do auto-conhecimento. "Diga-me com quem andas e te direi quem és", já dizia o filósofo.
Olhar o outro através do olhar dele é a chave da antropologia para estudar nós, o homo sapiens, animal que se destacou dos outros por causa de uma mutação que o fez dividir a vida em dois mundos: o mundo real e o da fantasia. Desta maneira, ninguém enxerga o mundo igual ao outro. Ele tem a sua particularidade, a sua visão de mundo. O que a Antropologia faz é procurar entender esta visão, de uma maneira isenta e profissional. Mas acontece que, assim como em qualquer trabalho, fica difícil dissociá-lo da subjetividade humana. Por isso muitos antropólogos aderem a esta subjetividade dentro do seu trabalho, assumindo estarem à procura da descoberta do outro dentro de si próprio. Ora, podemos dizer que isto se trata de uma amizade técnica entre o pesquisador e o objeto estudado. Quem disse que os dois não são contaminados um pelo outro neste encontro, ao ponto de se verem na outra pessoa?
Bom, realmente fica difícil nos eximirmos desta tarefa. A busca da amizade está intrísceca a convivência humana. É o que nos faz criar nossas famílias, lares. A qualidade da vida social de um grupo é medida pelo grau de relacionamento entre seus indivíduos. É óbvio que precisa-se haver inimizades, pois senão a busca não teria sentido.
É como uma colcha de retalhos que vai se formando através dos fios de cada um, dando lugar a um outro significado independente, mas que cada amigo olha e fala: "Este sou eu".
Ps.: Para os amigos que foram, que são e que estão por vir.
Joao Vicente
Ao mesmo tempo em que procura algo no outro, você está também sendo incomodado, subvertido, contaminado por este outro. Nesta corrida de mão-dupla, por uma simples convivência, há diversas batidas. Não tem linha que separe, não tem sinal que interrompa. Amizade é profusão de personalidades. é terapia em grupo. Uma faca no pescoço da hipocrisia. Sem ela não seríamos o que sabemos que somos. Nós só existimos no outro, e a busca da amizade é também a busca do auto-conhecimento. "Diga-me com quem andas e te direi quem és", já dizia o filósofo.
Olhar o outro através do olhar dele é a chave da antropologia para estudar nós, o homo sapiens, animal que se destacou dos outros por causa de uma mutação que o fez dividir a vida em dois mundos: o mundo real e o da fantasia. Desta maneira, ninguém enxerga o mundo igual ao outro. Ele tem a sua particularidade, a sua visão de mundo. O que a Antropologia faz é procurar entender esta visão, de uma maneira isenta e profissional. Mas acontece que, assim como em qualquer trabalho, fica difícil dissociá-lo da subjetividade humana. Por isso muitos antropólogos aderem a esta subjetividade dentro do seu trabalho, assumindo estarem à procura da descoberta do outro dentro de si próprio. Ora, podemos dizer que isto se trata de uma amizade técnica entre o pesquisador e o objeto estudado. Quem disse que os dois não são contaminados um pelo outro neste encontro, ao ponto de se verem na outra pessoa?
Bom, realmente fica difícil nos eximirmos desta tarefa. A busca da amizade está intrísceca a convivência humana. É o que nos faz criar nossas famílias, lares. A qualidade da vida social de um grupo é medida pelo grau de relacionamento entre seus indivíduos. É óbvio que precisa-se haver inimizades, pois senão a busca não teria sentido.
É como uma colcha de retalhos que vai se formando através dos fios de cada um, dando lugar a um outro significado independente, mas que cada amigo olha e fala: "Este sou eu".
Ps.: Para os amigos que foram, que são e que estão por vir.
Joao Vicente
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
INEVITÁVEL
Por sugestão da minha superempolgada namorada Duda fiz meu primeiro trabalho voluntário. Ela e sua trupe de aspirantes a psicólogas desenvolveram projeto que prevê visitas mensais a um asilo com o intuito de alegrar a vida daqueles que estão muito próximos da curva da morte. Eu iria mais como jornalista do que qualquer coisa. Minha incumbência era filmar. Aceitei sabendo que minha participação não se restringiria ao registro.
A Duda planejou um baile com música, dança e brindes para inaugurar o projeto. Eu estava eufórico e apreensivo com a idéia. Fomos ao asilo e, recebidos pela madre Justina, começamos a enfeitar o salão de festas cheio de cadeiras e com uma mesa de biscoitos e guaraná no canto. Começamos a encher os balões e a cada baforada os velhinhos enchiam a sala. Uns vinham em cadeiras de rodas e uns andavam com dificuldade, amparados por enfermeiras ou acompanhantes. Havia também aqueles que as pernas eram fortes, porém a surdez ou a cegueira os castigavam. Colocamos a música e com cinqüenta participantes o baile começou. Incentivamos a dança prometendo brindes para os mais animados.
Eu que estava lá só para fazer o registro não fiquei um segundo atrás da câmera. Fui o primeiro a tirar uma senhora pra dançar, as meninas por sua vez chamavam os senhores. Ofegantes e alegres, os velhos davam gargalhadas, formavam pares, contavam suas histórias de vida, ganhavam brindes, comiam biscoito e se divertiam com a visita atípica. Entre uma dança e outra aproveitava para conversar com cada um deles. A atenção é um bem muito precioso quando se vive isolado da família. Os velhos contavam suas histórias e meu coração apertava a cada relato.
Durante toda a visita estive feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por levar um pouco de alegria e atenção àqueles senhores e senhorinhas. E triste por constatar a violência que é envelhecer, na maldade que o tempo faz com a gente. O nó na minha garganta aumentou ainda mais quando entendi a solidão daquelas pessoas. Longe dos parentes, elas aguardam a morte torcendo para que seja indolor. Ouvi mais de trinta vezes a expressão “Deus te abençoe, meu filho”. Não sei ao certo como a vida me retribuirá pelo feito, mas uma coisa é certa, aqueles velhos fizeram eu me sentir melhor.
Há muitas incertezas nesse mundo. Muita discordância. Diferentes visões políticas, sociais, religiosas, ideológicas. Mas uma certeza coloca todos os habitantes do planeta como iguais: a certeza da Morte. Inevitavelmente, o ser humano vive em contagem regressiva desde o momento do nascimento, ou melhor, desde antes dele. O tempo tem efeito corrosivo sobre a pessoa. As feridas na alma vão cicatrizando e deixando marcas profundas no corpo. Foi numa conversa com a sempre entusiasmada em assuntos relacionados à psicologia e à vida e profunda entendedora da subjetividade, minha namorada Duda que abri a cabeça para a seguinte questão: simultaneamente, o tempo é gentil e cruel com o ser humano.
Gentil por que ajuda a superar traumas, cicatriza feridas na alma, dissolve mágoas, cura mazelas sentimentais e dores de cotovelo. O tempo mostra sua face cruel quando arranca rapidamente a juventude da pessoa, apodrece a carne morosamente, promove um genocídio de neurônios a cada novo ano, surrupia o bom desempenho dos olhos. Marcas e mais marcas aparecem no corpo e na mente simbolizando o prenúncio dela: a Morte. Há quem diga que não a teme, há quem sinta pavor só de tocar em seu nome, mas uma coisa é certa: ela é inevitável.
Lucas
A Duda planejou um baile com música, dança e brindes para inaugurar o projeto. Eu estava eufórico e apreensivo com a idéia. Fomos ao asilo e, recebidos pela madre Justina, começamos a enfeitar o salão de festas cheio de cadeiras e com uma mesa de biscoitos e guaraná no canto. Começamos a encher os balões e a cada baforada os velhinhos enchiam a sala. Uns vinham em cadeiras de rodas e uns andavam com dificuldade, amparados por enfermeiras ou acompanhantes. Havia também aqueles que as pernas eram fortes, porém a surdez ou a cegueira os castigavam. Colocamos a música e com cinqüenta participantes o baile começou. Incentivamos a dança prometendo brindes para os mais animados.
Eu que estava lá só para fazer o registro não fiquei um segundo atrás da câmera. Fui o primeiro a tirar uma senhora pra dançar, as meninas por sua vez chamavam os senhores. Ofegantes e alegres, os velhos davam gargalhadas, formavam pares, contavam suas histórias de vida, ganhavam brindes, comiam biscoito e se divertiam com a visita atípica. Entre uma dança e outra aproveitava para conversar com cada um deles. A atenção é um bem muito precioso quando se vive isolado da família. Os velhos contavam suas histórias e meu coração apertava a cada relato.
Durante toda a visita estive feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por levar um pouco de alegria e atenção àqueles senhores e senhorinhas. E triste por constatar a violência que é envelhecer, na maldade que o tempo faz com a gente. O nó na minha garganta aumentou ainda mais quando entendi a solidão daquelas pessoas. Longe dos parentes, elas aguardam a morte torcendo para que seja indolor. Ouvi mais de trinta vezes a expressão “Deus te abençoe, meu filho”. Não sei ao certo como a vida me retribuirá pelo feito, mas uma coisa é certa, aqueles velhos fizeram eu me sentir melhor.
Há muitas incertezas nesse mundo. Muita discordância. Diferentes visões políticas, sociais, religiosas, ideológicas. Mas uma certeza coloca todos os habitantes do planeta como iguais: a certeza da Morte. Inevitavelmente, o ser humano vive em contagem regressiva desde o momento do nascimento, ou melhor, desde antes dele. O tempo tem efeito corrosivo sobre a pessoa. As feridas na alma vão cicatrizando e deixando marcas profundas no corpo. Foi numa conversa com a sempre entusiasmada em assuntos relacionados à psicologia e à vida e profunda entendedora da subjetividade, minha namorada Duda que abri a cabeça para a seguinte questão: simultaneamente, o tempo é gentil e cruel com o ser humano.
Gentil por que ajuda a superar traumas, cicatriza feridas na alma, dissolve mágoas, cura mazelas sentimentais e dores de cotovelo. O tempo mostra sua face cruel quando arranca rapidamente a juventude da pessoa, apodrece a carne morosamente, promove um genocídio de neurônios a cada novo ano, surrupia o bom desempenho dos olhos. Marcas e mais marcas aparecem no corpo e na mente simbolizando o prenúncio dela: a Morte. Há quem diga que não a teme, há quem sinta pavor só de tocar em seu nome, mas uma coisa é certa: ela é inevitável.
Lucas
sábado, 5 de janeiro de 2008
É preciso saber morrer
Rimbaud presenteou sua (a dele) mãe com um exemplar de seu ( dele) próprio livro, "Temporada no Inferno". Após a leitura, a senhora Rimbaud perguntou: - "O que você quis dizer com aquilo, meu filho?".
Não sei se ela descobriu o que ele quis dizer. Mas eu descobri o que ela quis dizer: " - Filho, que porra é essa?". O livro é, quase todo, inacessível, obscuro, indecifrável. Rimbaud é contraditório, confuso e muitas vezes abusa do nonsense. Aqui e ali, surge uma imagem bonita, uma metáfora interessante, mas não acho que Rimbaud mereça tanta veneração. No Orkut, sua maior comunidade tem quase 5.000 membros. A de Whitman, que foi mais poeta, tem míseros 1.707 pobres diabos.
Talvez pegue bem dizer: "acho Rimbaud o máximo!!". Ou, talvez, sua popularidade se explique por ser o poeta dos alcóolatras, dos vagabundos e dos desesperados. Quem aí não tem uma destas três qualidades?
Rimbaud parou de escrever aos 21 anos de idade e foi traficar armas. Foi sua atitude mais nobre. Pena que nisso, ninguém o quis copiar. Hoje, todo se dizem influenciados pelo poeta. Qualquer um, em qualquer bar, tem um verso rimbaudiano na ponta da língua, mas ninguém tem coragem de largar o osso. Michel Melamed, por exemplo, estaria disposto a deixar a poesia e um emprego estável na TV Lula pelo tráfico de armas? Pelo cargo de porteiro no prédio 255 da Rua Barata Ribeiro, Copacabana?
Dan
Não sei se ela descobriu o que ele quis dizer. Mas eu descobri o que ela quis dizer: " - Filho, que porra é essa?". O livro é, quase todo, inacessível, obscuro, indecifrável. Rimbaud é contraditório, confuso e muitas vezes abusa do nonsense. Aqui e ali, surge uma imagem bonita, uma metáfora interessante, mas não acho que Rimbaud mereça tanta veneração. No Orkut, sua maior comunidade tem quase 5.000 membros. A de Whitman, que foi mais poeta, tem míseros 1.707 pobres diabos.
Talvez pegue bem dizer: "acho Rimbaud o máximo!!". Ou, talvez, sua popularidade se explique por ser o poeta dos alcóolatras, dos vagabundos e dos desesperados. Quem aí não tem uma destas três qualidades?
Rimbaud parou de escrever aos 21 anos de idade e foi traficar armas. Foi sua atitude mais nobre. Pena que nisso, ninguém o quis copiar. Hoje, todo se dizem influenciados pelo poeta. Qualquer um, em qualquer bar, tem um verso rimbaudiano na ponta da língua, mas ninguém tem coragem de largar o osso. Michel Melamed, por exemplo, estaria disposto a deixar a poesia e um emprego estável na TV Lula pelo tráfico de armas? Pelo cargo de porteiro no prédio 255 da Rua Barata Ribeiro, Copacabana?
Dan
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Marujo de primeira viagem
Coveni^encia. Essa eh a palavra de ordem nos EUA. Eles fazem tudo o possivel para poupar seu tempo. Na casa onde estou, por exemplo, eles usam pratos e copos de plastico, apesar de terem maquina de lavar louca. No supermercado, as saladas ja vem prontas. Ha ate uma caixa que vem com a bolacha, o queijo e o presunto. Voce so tem de montar o sanduiche. A conveniencia, no entanto, nao foi o fator que mais me chamou atencao. O que realmente impressiona aqui na terra do Tio Sam eh o numero de imigrantes. Segundo o marido da minha tia, o Michael, sao 30% dos habitantes do pais. Eles fazem o trabalho que os americanos nao querem fazer. Nos restaurantes, por exemplo, absolutamente todos os garcons sao estrangeiros, na grande maioria, mexicanos. Aqui na Georgia, a populacao eh predominantemente negra. Eles nao se misturam com os brancos. Minha tia diz que o racismo eh enorme. Segundo ela, o sentimento deles eh de que os brancos lhe devem algo. Mas, ao contrario do Brasil, os afro-americanos aqui vivem, em sua maioria, muito bem. Voce os ve em carros luxuosos e muito bem vestidos. Nao ha mendigos, nem miseria. Dificilmente voce ve taxis ou onibus, ja que quase todos os habitantes da cidade tem carro. E voce precisa dele para fazer qualquer coisa. Parece Bras'ilia. Como eu imaginava, tudo eh muito bem cuidado e moderno. Outra coisa interessante eh que o preco dos produtos que voce ve nas estantes da loja nao eh o preco final do produto. Cada estado tem seu imposto. Aqui na Georgia eh 7%. Por exemplo, se determinada camisa tem o preco de U$ 10,00, voce vai pagar no caixa U$ 10,70. Eh um imposto unico. Talvez por isso, os produtos aqui sao inacreditavelmente baratos. Comprei um casacao de frio super moderno por U$ 28,00. No Brasil, seria no minimo uns R$ 250,00. Da vontade de comprar tudo. Ate para os nao consumistas como eu. A vida aqui eh facil, do ponto de vista financeiro, pelo menos.
As coisas estao indo really well, apesar de eu ter passado o reveillon vendo se um maluco iria conseguir pular uma rampa de moto, num evento do Red Bull. Ele conseguiu e todo mundo ficou decepcionado.
Que venha a Califa!
P.S. - Desculpe a falta de acentos e cedilhas, mas o teclado aqui eh diferente.
Julio
Enviado especial, Atlanta, Ge.
As coisas estao indo really well, apesar de eu ter passado o reveillon vendo se um maluco iria conseguir pular uma rampa de moto, num evento do Red Bull. Ele conseguiu e todo mundo ficou decepcionado.
Que venha a Califa!
P.S. - Desculpe a falta de acentos e cedilhas, mas o teclado aqui eh diferente.
Julio
Enviado especial, Atlanta, Ge.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Edivaldo e Wanda
Estava viajando numa história e resolvi escrever um continho.
Edivaldo era guarda municipal. O mulato de cara risonha sonhava em se tornar policial, como não passara no concurso da PM, virou guarda. Ele desejava combater bandidos, garantir a segurança da cidade. Na guarda, seus algozes eram os camelôs. Vindo de família pobre do interior, Edivaldo não gostava de confiscar a mercadoria dos vendedores. Sentia pena dos trabalhadores e raiva da corporação, que o obrigava a tomar aquela atitude.
Copacabana era sua área de trabalho. Passava os dias ordenando o espaço urbano local e sentia orgulho disso. Naquele mesmo bairro trabalhava Wanda, uma fiscal de ônibus. Diariamente tomava nota dos ônibus que passavam por ali. Os dois se conheceram por obra do acaso. Wanda despertava o desejo de Edivaldo. Os cabelos ondulados, os lábios grossos e a carne morena atraiam o rapaz tanto quanto sua personalidade. Moça esperta do subúrbio, geniosa, malandra, vivida.
Edivaldo por diversas vezes a chamara para um café após o expediente. Wanda sempre recusava. Dizia que tinha homem em casa à espera. Despedia-se às 18 horas com um beijo no rosto brilhante e negro do rapaz e entrava na condução rumo ao subúrbio do Rio. Certo dia o guarda comprou um cuscuz e o ofereceu junto com todo seu amor. Wanda recusou o amor mas aceitou o doce. No entanto, disse que havia uma possibilidade de saírem juntos. Se ele pagasse um motel ela tomaria o café e faria muitas outras coisas. “Tem que ser motel de luxo. Se conseguir, eu levo o açúcar para adoçar nosso café”, disse atiçando ainda mais a imaginação interiorana do rapaz. Ele nunca havia ido ao motel na vida.
Sem dinheiro para o mimo, Edivaldo queimou neurônios para encontrar maneira de deitar com a morena curvilínea. O salário de R$ 490 mal dava para ajudar nas contas de casa e sua falta de esperteza restringia ainda mais suas possibilidades. Até que um colega de labuta lhe ofereceu a oportunidade ideal. Confiscariam toda a mercadoria do camelô mais famoso de Copacabana e venderiam para um cara da baixada. O rapaz não simpatizou, mas pressionado pela libido aceitou a proposta.
A ação foi um sucesso. O fruto da operação rendeu R$ 300, dinheiro suficiente para o motel. Edivaldo disse à Wanda que naquela noite seus corpos iriam se confundir na cama do motel mais chique da zona sul. Um misto de desconfiança e euforia tomou conta da moça que prontamente telefonou para seu homem e disse que naquela noite ela se atrasaria.
Na cama, a moça esperta e vivida mostrou-se bastante pragmática. Chata, até. Não fazia nada demais. Tudo que Edivaldo tentava era rechaçado pela mulher. “Não sou disso”, repetia sempre que ele tentava algo mais ousado. O rapaz esperava uma transa arrebatadora, mas o que ocorreu não chegava nem perto disso. Frustrado, o guarda acompanhou a moça até a saída do motel uma hora antes do período terminar. Antes de entrar na condução, Wanda lhe deu um beijo na boca e disse: “Da próxima vez eu libero mais coisa”.
A afirmação levantou o ânimo do rapaz, que imediatamente começou a arquitetar um plano para arranjar mais algum. Convicto de que o camelô mais famoso de Copacabana seria sua fonte de renda, Edivaldo passou a confiscar semanalmente a mercadoria do ambulante. A pena já não o consumia, na verdade até gostava daquilo. Quando uma ponta de remorso o invadia, ele pensava em Wanda e nas suas carnes negras tocando seu corpo.
E durante um mês, Wanda e Edivaldo foram ao motel diversas vezes e o sexo esquentava a cada episódio. O rapaz tímido do interior a dominava sem nenhum constrangimento. Wanda, por sua vez, não negava mais nada. Os dois passaram a viver uma paixão intensa regada à febre. O desespero por dinheiro fez com que Edivaldo fosse odiado pelos camelôs. O mais famoso de Copacabana, cansado de ter sua mercadoria confiscada, jurou vingança com um entranho brilho no olhar.
Certo dia, Edivaldo despediu-se de Wanda com um caloroso beijo na boca. A moça, da janela da condução, observou a silhueta do rapaz desaparecer na rua. Contente, ele aguardava a próxima ida ao motel. Ao virar a esquina, o camelô mais famoso de Copacabana, de tocaia, o surpreendeu com cinco facadas nas costas. O rapaz caiu no chão e ali deu seus últimos suspiros com vida.
Wanda nunca soube da morte de Edivaldo. Meses depois, a moça já se esquecera daquele período de idas ao motel. Um dia, parada no ponto, conheceu outro rapaz que lhe encantara pela malemolência e malandragem.
– Fala, linda. Meu nome é Gilmar.
– Sou Wanda – disse jogando o cabelo moreno.
– Você sabia que eu sou o camelô mais famoso de Copacabana?
Lucas
Edivaldo era guarda municipal. O mulato de cara risonha sonhava em se tornar policial, como não passara no concurso da PM, virou guarda. Ele desejava combater bandidos, garantir a segurança da cidade. Na guarda, seus algozes eram os camelôs. Vindo de família pobre do interior, Edivaldo não gostava de confiscar a mercadoria dos vendedores. Sentia pena dos trabalhadores e raiva da corporação, que o obrigava a tomar aquela atitude.
Copacabana era sua área de trabalho. Passava os dias ordenando o espaço urbano local e sentia orgulho disso. Naquele mesmo bairro trabalhava Wanda, uma fiscal de ônibus. Diariamente tomava nota dos ônibus que passavam por ali. Os dois se conheceram por obra do acaso. Wanda despertava o desejo de Edivaldo. Os cabelos ondulados, os lábios grossos e a carne morena atraiam o rapaz tanto quanto sua personalidade. Moça esperta do subúrbio, geniosa, malandra, vivida.
Edivaldo por diversas vezes a chamara para um café após o expediente. Wanda sempre recusava. Dizia que tinha homem em casa à espera. Despedia-se às 18 horas com um beijo no rosto brilhante e negro do rapaz e entrava na condução rumo ao subúrbio do Rio. Certo dia o guarda comprou um cuscuz e o ofereceu junto com todo seu amor. Wanda recusou o amor mas aceitou o doce. No entanto, disse que havia uma possibilidade de saírem juntos. Se ele pagasse um motel ela tomaria o café e faria muitas outras coisas. “Tem que ser motel de luxo. Se conseguir, eu levo o açúcar para adoçar nosso café”, disse atiçando ainda mais a imaginação interiorana do rapaz. Ele nunca havia ido ao motel na vida.
Sem dinheiro para o mimo, Edivaldo queimou neurônios para encontrar maneira de deitar com a morena curvilínea. O salário de R$ 490 mal dava para ajudar nas contas de casa e sua falta de esperteza restringia ainda mais suas possibilidades. Até que um colega de labuta lhe ofereceu a oportunidade ideal. Confiscariam toda a mercadoria do camelô mais famoso de Copacabana e venderiam para um cara da baixada. O rapaz não simpatizou, mas pressionado pela libido aceitou a proposta.
A ação foi um sucesso. O fruto da operação rendeu R$ 300, dinheiro suficiente para o motel. Edivaldo disse à Wanda que naquela noite seus corpos iriam se confundir na cama do motel mais chique da zona sul. Um misto de desconfiança e euforia tomou conta da moça que prontamente telefonou para seu homem e disse que naquela noite ela se atrasaria.
Na cama, a moça esperta e vivida mostrou-se bastante pragmática. Chata, até. Não fazia nada demais. Tudo que Edivaldo tentava era rechaçado pela mulher. “Não sou disso”, repetia sempre que ele tentava algo mais ousado. O rapaz esperava uma transa arrebatadora, mas o que ocorreu não chegava nem perto disso. Frustrado, o guarda acompanhou a moça até a saída do motel uma hora antes do período terminar. Antes de entrar na condução, Wanda lhe deu um beijo na boca e disse: “Da próxima vez eu libero mais coisa”.
A afirmação levantou o ânimo do rapaz, que imediatamente começou a arquitetar um plano para arranjar mais algum. Convicto de que o camelô mais famoso de Copacabana seria sua fonte de renda, Edivaldo passou a confiscar semanalmente a mercadoria do ambulante. A pena já não o consumia, na verdade até gostava daquilo. Quando uma ponta de remorso o invadia, ele pensava em Wanda e nas suas carnes negras tocando seu corpo.
E durante um mês, Wanda e Edivaldo foram ao motel diversas vezes e o sexo esquentava a cada episódio. O rapaz tímido do interior a dominava sem nenhum constrangimento. Wanda, por sua vez, não negava mais nada. Os dois passaram a viver uma paixão intensa regada à febre. O desespero por dinheiro fez com que Edivaldo fosse odiado pelos camelôs. O mais famoso de Copacabana, cansado de ter sua mercadoria confiscada, jurou vingança com um entranho brilho no olhar.
Certo dia, Edivaldo despediu-se de Wanda com um caloroso beijo na boca. A moça, da janela da condução, observou a silhueta do rapaz desaparecer na rua. Contente, ele aguardava a próxima ida ao motel. Ao virar a esquina, o camelô mais famoso de Copacabana, de tocaia, o surpreendeu com cinco facadas nas costas. O rapaz caiu no chão e ali deu seus últimos suspiros com vida.
Wanda nunca soube da morte de Edivaldo. Meses depois, a moça já se esquecera daquele período de idas ao motel. Um dia, parada no ponto, conheceu outro rapaz que lhe encantara pela malemolência e malandragem.
– Fala, linda. Meu nome é Gilmar.
– Sou Wanda – disse jogando o cabelo moreno.
– Você sabia que eu sou o camelô mais famoso de Copacabana?
Lucas
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